31 julho, 2011

A filosofia faz-se pensando

Este é um bom artigo que auxilia os professores de filosofia em suas práticas pedagógicas de sala de aula. Achei importante socializá-lo aqui no Mora na Psicologia. Ele está postado na revista de filosofia Crítica na Rede.
http://criticanarede.com/fil_fazsepensando.html



Um debate de ideias para estudantes da primeira unidade do 10.º ano
Paulo Jorge Domingues de Sousa


Introdução


Terminei o ano lectivo de 1999/2000 pensando que as aulas expositivas não funcionam bem com o 10.º ano da Introdução à Filosofia. Os alunos foram recebidos na disciplina com uma abordagem teórica que a tornou enfadonha e desmotivante, comprometendo tanto a adesão às actividades da aula como a compreensão profunda e intuitiva daquilo que é a filosofia e de quais são os horizontes que ela nos abre, enquanto pensamento crítico interessado em melhorar a nossa compreensão do mundo e de nós próprios. Caí no erro de falar sobre a filosofia, a partir de fora, e poucas vezes a pus em prática. Os resultados foram maus. Com este tipo de trabalho e de resultados, de modo algum se justifica a inclusão da Filosofia no conjunto das disciplinas de formação geral, dando lugar a aulas enfadonhas que ensinam pouco ou nada que se aproveite e que constitui apenas perda de tempo e de energias. Mea culpa. Das conversas que tive com os outros colegas que leccionaram o 10.º ano durante este ano lectivo, deduzi que algo semelhante se passou com as suas turmas. ... Veja mais aqui

15 julho, 2011

17ª CRE Realiza o I Curso de Formação Continuada para Profissionais da Educação

A 17ª Coordenadoria Regional de Educação de Santa Rosa promove entre os dias 18 a 22 de julho, do referido ano, o I Curso de Formação Continuada para Profissionais da Educação. O evento é inédito, pois até o momento, não se tinha oferta desse tipo de ação por parte da Secretaria Estadual da Educação e da Coordenadoria Regional de Educação que reunisse todos os professores e agentes educacionais da Rede Pública Estadual.

Entre a programação do Evento, que contará com palestrantes como o Doutor e Vice-Reitor da Universidade Federal Fronteira Sul Antônio Inácio Andriolli, o professor da Unisinos Raul Pont, a Consultora do Ministério da Educação Danise Vivian e a professora da URI Rosângeloa Binotto.
Acontecerá também, no dia 18, o I Colóquio Sobre Formação Continuada de Trabalhadores em Educação, evento esse desenvolvido em parceria com instituições de ensino superior da Região, Cpers e outras CREs e visa proporcionar o debate e a reflexão de 16 áreas de ensino.

O I Curso de Formação Continuada acontecerá simultaneamente nos municípios de Santa Rosa e Três de Maio. Em Santa Rosa no Centro Cívico e Cultural Antônio Carlos Borges (dias 18, 20 e 21) e no ginásio de esportes do Colégio Salesiano Dom Bosco (dia 19). Em Três de Maio no Clube Buricá (dias 18, 19, 20 e 21). As palestras acontecerão pela manhã, nos horários das 8h30min às 12h e, na tarde, entre às 13h30min às 17h. No dia 22, a formação acontecerá nas escolas.

Segundo a Coordenadora da 17ª CRE Ilse Bamberg, o evento proporcionará a formação dos profissionais em educação na perspectiva de uma educação pública de qualidade social com cidadania. As atividades envolverão cerca de 2300 profissionais da educação.

01 abril, 2011

Secretário da Educação do RS visita Santa Rosa

Foto: Marcela Santos

Em Santa Rosa, nesta sexta feira, secretário da Educação do RS, Jose Clovis de Azevedo anunciou concurso para o 2º Semestre de 2011, como demais ações do Governo. Infraestrutura, formação de professores e fundamentos pedagógicos serão as ações principais da Seduc.

O secretário participou também de uma reunião com os dirigentes das instituições de ensino superior da Região. Ficou acertado que as instituições públicas e comunitárias irão elaborar uma proposta em conjunto para a formação de professores.

Ainda na palestra com lideranças políticas de toda a região, diretores e professores de escolas o secretário fez críticas o GEEMPA por afirmar que alfabetiza crianças em um mês. Segundo o Secretário é preciso respeitar o ritmo intelectual de cada criança. Está sendo pensado o ciclo de alfabetização para crianças de 6, 7 e 8 anos. Nesse período deve ser respeitado o percurso da alfabetização de cada estudante. No final do ciclo os estudantes devem sair alfabetizados. "O Estado não pode terceirizar serviços que lhe é de sua obrigação. É papel da Secretaria da Educação desenvolver e apresentar propostas de alfabetização à sociedade gaúcha", afirma Azevedo.

04 abril, 2010

Conferência Nacional de Educação - CONAE 2010

Entre plenárias e discussões sobre a Educação, estiveram reunidos no Ministério de Educação para tratar sobre o PAR com a chefe de gabinete da Secretaria de Educação Básica professora Godiva de Vasconcelos a secretária Fátima Ehlert, Ana Cristina, Jarbas Felicio e o secretário de educação de Porto Xavier professor Edio Eckerleben.

Por Jarbas Felício Cardoso,

Sandra Pimmel e Ana Cristina Duarte.

Organizada pelo MEC e desenvolvida em três etapas: municipal, regional e estadual, no ano de 2009; a Etapa Nacional da Conferência Nacional de Educação - CONAE teve seu desfecho entre os dias 28 de março a 01 de abril, em Brasília/DF. No decorrer de suas etapas contou com a participação de mais de 400 mil pessoas da sociedade civil, que além de estudar, debater e propor emendas sobre educação tiveram a responsabilidade de aprovar o documento referência que é composto por cinco eixos temáticos: EIXO I - Papel do Estado na Garantia do Direito à Educação de Qualidade: Organização e Regulação da Educação Nacional; EIXO II - Qualidade da Educação, Gestão Democrática e Avaliação; EIXO III - Democratização do Acesso, Permanência e Sucesso Escolar; EIXO IV - Formação e Valorização dos Profissionais da Educação; EIXO V - Financiamento da Educação e Controle Social; EIXO VI - Justiça Social, Educação e Trabalho: Inclusão, Diversidade e Igualdade.

Além de ser um dos primeiros municípios do Estado a realizar a etapa municipal, Giruá teve sua participação na etapa estadual com a representação de quatro delegados da Secretaria Municipal de Educação de nosso município: a Secretária de Educação e Cultura, Fátima Anise Rodrigues Ehlert, representando os gestores, o Assessor Pedagógico, Jarbas Felicio Cardoso, representando os trabalhadores em educação e a Supervisora da SMEC, Ana Cristina Czegelski Duarte, representando o Conselho Municipal de Educação e também, de Giruá, a Técnica da SEMA e Bióloga, Melissa Bergmann, representando o segmento pais. Através do processo de votação entre na Etapa Estadual, foram eleitos delegados do Estado: a Secretária Fátima, o Assessor Jarbas e a supervisora Ana Cristina, que representaram com demais delegados, o Estado do Rio Grande do Sul, em Brasília.

A CONAE Nacional representa um marco histórico para a educação nacional; participaram deste evento cerca de 3000 mil pessoas, dentre elas representantes de educadores, gestores, empresários, estudantes e pais, de todo o Brasil, para discutir o Plano Nacional de Educação que irá nortear as ações da educação no país nos próximos dez anos.

Além de reunir representantes do Brasil , observadores e pesquisadores de outros países da América Latina puderam participar do evento e das plenárias que tratavam da aprovação do documento final, a CONAE ficou marcada também por ser um espaço do exercício da democracia que se materializou em colóquios, seminários, palestras, plenárias, debates e shows culturais, todos sendo ministrados por grandes nomes da intelectualidade do país, dentre eles o Ministro da Educação, Fernando Haddad, o Senador Cristovan Buarque, o escritor e poeta Ariano Suassuna e outros. O ponto alto do encerramento foi a presença do Excelentíssimo Senhor Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Parabéns aos giruaenses participantes da CONAE.

30 maio, 2009

O conceito de meio ambiente II



Por Melissa Bergmann e Jarbas Felicio Cardoso

A questão ambiental que se faz presente em nosso cotidiano, como fator preocupante, é recente, tornou-se relevante a partir do século xx e com mais vigor só na sua segunda metade. Esta temática surgiu com a tese de que se vive uma crise ambiental. A crise ambiental foi inicialmente interpretada como crise da natureza, em que o equilíbrio entre os fatores bióticos (seres vivos) e abióticos (não-vivos) foi desestruturado. Atualmente a questão é mais ampla e não se refere apenas à vida de seres animais e vegetais em seu ambiente natural, mas também a uma questão social e, acima de tudo ética, logo, humana: “como devemos agir em relação ao Meio Ambiente?”
Fazendo uma abordagem sobre o conceito de meio ambiente podemos afirmar que os significados das palavras “meio” e “ambiente” referem-se a variadas questões. Tradicionalmente, a palavra “meio” tem conotação advinda do conhecimento científico experimental, mais relacionada ao sentido de substância. O termo “ambiente” fora utilizado em épocas passadas como “circunstâncias”, isto é, como os fatores circundantes que influiriam na vida dos seres vivos. A expressão “meio ambiente”, portanto, é mais restritiva do que “ambiente”, referindo-se ao “meio” "circundante”.
O meio ambiente é considerado como um lugar determinado ou percebido, onde ocorre interação entre os elementos naturais e sociais. Essa interação implica processos de criação cultural e tecnológica e processos históricos e sociais de transformações do meio natural e construído. Por isso, pensar o meio ambiente é pensar a natureza e os espaços modificados pela ação humana. É considerar a importância das matas e da biodiversidade, mas também valorizar o ambiente urbano.
Na próxima semana vivenciaremos a Semana Mundial do Meio Ambiente e, portanto, tal conceito exige de nós, seres livres e conscientes, uma reflexão sobre nossa condição com relação ao que nos circunda. Cabe no mínimo o questionamento: será que estamos de fato cuidando de nosso meio ambiente?
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Texto publicado no Jornal Folha Giruaense em 30/05/2009.

Por que secam as fontes


Por Melissa Bergmann e Jarbas Felicio Cardoso

Houve um tempo em que a preocupação com a escassez da água era coisa que chegava até nós giruaenses somente através do noticiário. Falta de água potável era problema de nossos patrícios do nordeste. É claro que, de tempo em tempo, sempre enfrentamos estiagem e falta de chuvas e isso não é de hoje. O fato é que nos últimos anos essa realidade vem cada vez mais se agravando, ficando evidente para todos. Fato concreto desse argumento é, por exemplo, o relato de moradores da localidade do Rincão Melgarejo. Contam estes que em 2005 nunca se viu o riacho (conhecido por sanga) que corta a localidade com tão pouca água.
Na atualidade, em Giruá, nos deparamos com uma estiagem que para muitos pode parecer normal. Mesmo assim, o número de famílias do interior do município que se encontram sem água para beber em suas propriedades é estarrecedor. Nunca houve, por exemplo, necessidade de a prefeitura levar água para residências do meio rural. Cabe a nós nos questionarmos sobre tais fatos. Por que estão secando nossas fontes de água? Será que dentro dessa “normalidade” de escassez das chuvas não está acrescida também a intervenção de nossas ações?
O Brasil é um país rico em águas superficiais e subterrâneas para consumo humano. Comparativamente, Giruá não difere de tal posição. Com altitude entre 300-400 metros, é local de afloramento de muitas nascentes. Entretanto, a alteração dos ambientes pode estar modificando os ciclos hídricos. O solo, com pouca ou desprovido de qualquer vegetação, já não retém a água das chuvas, que carrega consigo parte do material superficial, ocasionando erosão e assoreamento nos rios.
Relevantes ecossistemas são também as áreas alagadas, como os banhados, que apresentam flora e fauna características, e são funcionalmente importantes como reservatórios de água. São responsáveis pela atenuação de cheias e atuam na recarga e descarga de águas subterrâneas. Os banhados, no entanto, estão ameaçados no Rio Grande do Sul pelas drenagens (retirada de água) para diversos fins. Isso compromete o armazenamento de água no subsolo.
Embora não existam estudos concludentes sobre a crise da água que vive nossa região, faz-se necessário e com urgência fazermos uma reflexão sobre nossas ações. Ou achamos uma solução para conciliar produção e respeito aos ecossistemas ou nos encaminharemos para uma situação calamitosa em que nossas fontes de água cada vez mais irão sucumbir.
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Texto publicado no Jornal Folha Giruaense em 02/05/2009.

13 março, 2009

IGREJA E PATRIARCADO











Por Luciano Gonçalves Soares*

Recentemente assistimos à notícia de excomunhão de uma criança de 11 anos e de sua mãe em Pernambuco. A criança fora estuprada e corria risco de morte. Paira sobre o risco de morte da menina, a causa primacial de mãe e filha serem mulheres e pobres, portanto vítimas da prepotência do poder masculino, que traduz nas relações sexuais as posições de poder socieconômico ao longo da História. O bispo pernambucano José Gomes Sobrinho, ao excomungar as mulheres pobres vítimas de uma violência antes de mais nada patriarcal, não exprobrou com a mesma pena o estuprador, alegando que para a Igreja Católica o aborto é mais grave do que o estupro. Não é bem assim.
Quem conhece a história das igrejas, e a forma como a Igreja Católica adquiriu e manteve o predomínio sobre as consciências humanas por longos anos no Ocidente, não podia esperar outra decisão do bispo de Olinda. Toda igreja é um sujeito situado historicamente, e por isso analisável nas relações que mantém com os grupos humanos e nos posicionamentos a respeito da igualdade ou desigualdade entre os grupos.
Ora, os povos europeus e americanos que sofreram influência ideológica católica não conheceram harmonia nas relações humanas. Pelo contrário, a história ocidental assinala-se por lutas de classes com interesses econômicos antagônicos e inconciliáveis. A maneira como esses antagonismos se resolveram foi a violência: a guerra, o extermínio de povos americanos, a destruição de línguas, culturas e identidades dos grupos de pessoas vencidas e a submissão, econômica antes de tudo, total dos derrotados. Os humanos vencedores justificavam-se ideologicamente, com a atribuição de sua vitória a entidades divinas, sobrenaturais.
Nesse contexto a Igreja Católica Romana surgiu. Roma foi a sede de um dos maiores impérios político-econômicos que houve na História. O predomínio das opiniões e doutrinas do bispo de Roma sobre os de outras capitais importantes para o Cristianismo, como Istambul, Cartago e Antioquia deve-se unicamente ao prestígio geoeconômico dos poderosos ligados ao bispado de Roma durante toda a Idade Média, a ponto de a Igreja Católica formar um Estado – o Vaticano.
Portanto, qual foi a orientação ideológica que o Vaticano imprimiu ao Cristianismo? A justificação dos poderosos com os quais entretinha interesses. Os bispos de Roma coroavam e abençoavam os reis da Europa ocidental, e as monarquias desse lado europeu pagavam, na forma de tributos ao Papa, a pompa vaticana. Que esperar das encíclicas senão a legitimação do status?
Tal legitimação revestiu-se da bênção divina ao patriarcado, regime social em que a autoridade máxima pertence aos homens que exercem as decisões políticas e econômicas, e exigem a obediência dos homens socialmente subalternos, das crianças e das mulheres. Por não exercerem a guerra e as atividades que enriqueciam – e que eram e são a motivação de todas as guerras – as mulheres e as crianças foram destinadas à obediência masculina, a qual se devia no lar ao marido e pai, esteio econômico da família, mas principal e realmente aos homens que de fato exerciam o poder político e econômico sobre o seu marido e pai.
A finalidade ideológica do Vaticano, no seio da família, era, e não mudou, aconselhar a obediência ao pai e marido, para ir pro céu. Quem desobedece ao patriarcado, ofende a Deus, e a essas mulheres e crianças rebeldes estava, e continua sendo, destinado o inferno. Por isso, pela legitimação do patriarcado, o Vaticano – Estado e órgão oficial da Igreja Católica – sempre se manteve omisso à violência doméstica, que é antes de tudo a violência legitimada pelas relações socieconômicas do patriarca sobre os seus subalternos.
Ao excomungar as vítimas do estupro em Olinda, por causa do aborto, e absolver pela omissão o estuprador, o bispo de Olinda foi absolutamente fiel à orientação do Vaticano, que não mudou: a finalidade da Igreja Católica é legitimar as relações de poder. No seio da família, tais relações se traduzem pela legitimidade do macho da casa em estuprar as fêmeas.

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* Professor de Língua Portuguesa na Faculdade Batista Pioneira de Ijuí
Professor de Língua Portuguesa e de Literatura no Instituto João XXIII – Giruá -RS

26 setembro, 2008

Nota ao leitor do Blog Mora na Psicologia.



É sempre uma satisfação quando recebo e-mail de estudantes de diferentes partes do Brasil comentando ou solicitando algum tipo de auxílio sobre temas publicados neste Blog. Alguns até me questionando sobre o porquê de não ter mais postado. Porém é com aflição que algumas vezes deixei de responder a pedidos de ajuda sobre assuntos que aqui trabalho. Em função de não ter mais postado e deixado de responder os e-mails, fica esta pequena nota para informar que durante esse tempo, estive ocupado desenvolvendo um novo projeto voltado para a área do meio ambiente. Sobre este, os leitores poderão conferir no site da Solobrás Consultoira Ambiental.
Por fim, quero informar aos muitos que aqui chegam que, se não este ano, então no próximo, estarei retomando a idéia do blog Mora na Psicologia. Pretendo dar mais ênfase a conteúdos sobre Filosofia e Sociologia, pois é sobre estas duas áreas que estou desenvolvendo minhas atividades pedagógicas junto de meus novos alunos no Instituto Estadual de Educação João XXIII de Giruá, RS. Solobrás Consultoria Ambiental
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Jarbas Felicio Cardoso

20 fevereiro, 2008

Schopenhauer, mulheres e vontade de viver


Por Jarbas Felicio

Tenho andado ocupado, lendo Schopenhauer e, ao contrário do que se possa imaginar, tais leituras tem sido boas, fizeram-me pensar sobre n questões. Por exemplo, cheguei a conclusão sobre o motivo dele não gostar das mulheres, na verdade penso que o que mais deveria irritá-lo era a forma como as mulheres se portavam, ou de como se deixavam manipular e dominar. Tal realidade fez com que ele pensa-se nas mulheres como bestas. Não que ele não gostasse de mulheres, pelo que me consta na literatura, deveria gostar. O fato é que ele condenava a forma de ser das mulheres, como afirmei acima, penso que ele não suportava ver a exploração dessas. Ele não deveria admitir que seres dotados de igual inteligência, assim como o gênero oposto, deixavam-se simplesmente tornar-se meros objetos de reprodução e de fins voltados para a questão simplista de sexualidade. Se Schopenhauer vive-se nos dias atuais, creio que seria um feminista, um defensor das mulheres.

Dia desses, olhando o carnaval e vendo uma mulher gabar-se de estar desfilando com o menor tapa-sexo, (esta foi tratada como a “mulher do boi” por seu assistente ao colocar o dito tapa-sexo), percebi que algumas coisas não foram alteradas com relação à época de Schopenhauer. As mulheres de hoje, em grande número, continuam portando-se como no passado, pegando para si, o papel de meros objetos da exploração simplória sobre a sexualidade. Devo admitir que achei interessante a indumentária da mulher participante do carnaval, o que não gostei foi da forma como esta deixou ser tratada na totalidade. Há outros argumentos sobre essa questão dos quais defendo e que me fazem não me contradizer sobre a exploração sexual. Como não sou feminista, não vou aprofundar-me nesta questão. Vou deixar essa parte para as mulheres ou feministas.

Não sei por que escrevi sobre mulheres, na verdade o que mais tem me chamado a atenção nas leituras em Schopenhauer é sua descrição sobre a existência humana. E agora de forma mais aprofundada, estou compreendo o porquê das suas afirmações, tipo: viver é sofrer. Quando lia esse tópico, em qual ele argumenta sobre o viver e querer viver, lembrei-me de realidades existenciais das quais me deparo em meu eu e no de outras pessoas.

Somos na verdade criaturas que nunca estamos completamente satisfeitas, sempre estamos querendo. Há uma aspiração contínua em querer. Eis aí a origem de todo o sofrer humano. A tese schopenhaueriana do querer difere de tantas outras por relacionar a constante insatisfação humana a uma fonte de origem inorgânica, de uma “essência íntima da vida universal” que se transforma também orgânica. A origem do querer humano não se encontra na questão externa, cultural e, sim, na constituição do próprio ser. Ela se faz orgânica e por sua força de vontade se manifesta á luz de nossa consciência. Toda vez que tal força de vontade se depara com algum obstáculo gera, portanto o bloqueio da satisfação, e dessa forma o sofrimento. A questão do viver e querer viver é infindável com relação ao sofrimento, pois, se estivermos tristes e insatisfeitos com algo, na media que essa tristeza é superada, outra e de igual característica surge, fazendo desta forma com que o sofrimento nunca (ou por curtos momentos) deixe de se fazer presente em nossa existência. Tal problemática do sofrer constante já vem codificada em nosso ser orgânico e se faz sentir (entender) no homem em sua representatividade conceitual que desenvolvemos sobre as coisas. E é justamente por possuirmos o entendimento das coisas é que somos os entes que mais sofrem com tal realidade.

A saída para tal sofrimento, que nunca cessa em nosso ser, está na recusa do querer, afirma Schopenhauer. É a recusa da vontade (natureza, ou então, manifestação desta em nós para se manter sempre viva, sempre renovada). Essa negação da vontade, (em nós a vontade se manifesta sob a forma p.ex., de desejo, sexo, reprodução), é na verdade trágica, funciona tipo uma anestesia que precisamos dar em nossas vidas com relação ao nosso querer, resumindo essa questão em uma palavra, ataraxia (outra hora explico melhor).

Penso que enquanto não fizermos a tal da ataraxia, a sugestão para encontrarmos um pouco de trégua do sofrer é, segundo o próprio Schopenhauer, aproveitar de forma lenta estes raros momentos de satisfação. São exatamente esses os responsáveis por materializar em nosso espírito o que compreendemos por felicidade.

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Ainda estou trabalhando no texto.

18 fevereiro, 2008

Uma reflexão sobre as ciências humanas e o mercado de trabalho

Por Paulo Ghiraldelli



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In: http://portal.filosofia.pro.br/blog.html

04 dezembro, 2007

Estudos sobre ética (resumo)


Ética - Parte da Filosofia que se ocupa com o valor do comportamento humano. Investiga o sentido que o homem imprime à sua conduta para ser verdadeiramente feliz.

Deontologia - Do grego δέον, dever + λόγος, tratado. O termo deontologia refere-se ao ramo da ética cujo objeto de estudo são os fundamentos do dever e as normas morais.

Para deontologia nem só as consequências das nossas ações as tornam certas ou erradas. Muitas ações são intrinsecamente erradas, ou seja, erradas independentemente das suas conseqüências. Podemos dizer, aliás, que todos temos de respeitar certos deveres que proíbem a realização dessas ações.

Imperativo categórico kantiano - É um dever fundamentado pela conhecida máxima “aja de modo que queiras que a tua lei se torne universal”.
Para Kant, o ato moral seria então a ação conforme este dever expresso na máxima. Ou melhor, seria agir de acordo com o dever, por dever, sem qualquer outro tipo de inclinação senão o próprio ato. A ação boa em si mesma, independente dos fins, é o que distingue fundamentalmente o utilitarismo da ética kantiana.

Utilitarismo - (ética utilitarista) pode ser caracterizada por aquilo que se denomina como princípio da utilidade, ou melhor, uma ação é útil e, portanto, justa, ética e correta, quando traz mais felicidade do que sofrimento aos atingidos. Deste modo, o prejuízo de alguns poderia ser justificado pelo benefício de outros, desde que estes estivessem em maior número (cálculo de maximização do bem).

O relativismo moral - A moral é uma criação de cada sociedade, e é inevitável refletir os padrões de cultura da sociedade que lhe deu origem. Ou seja, define uma moral própria e característica.

Se os valores morais fossem objetivos, não dependeriam de nenhum ponto de vista particular.

Portanto, os valores morais não são objetivos.

Ética empresarial - Diz respeito a como deve o lucro ser concebido no contexto mais amplo da produtividade e da responsabilidade social, e como podem as grandes empresas, enquanto comunidades complexas, servir tanto os seus empregados como a sociedade na qual se encontram.
Sua primeira tarefa é abrir caminho por entre alguns mitos e metáforas altamente incriminatórios que, mais do que esclarecer, obscurecem o espírito subjacente que torna a atividade empresarial possível.

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Resumo e foto por Jarbas Felicio Cardoso.



20 novembro, 2007

Ética e violência

Quando acompanhamos a história das idéias éticas, desde a Antiguidade clássica (greco-romana) até nossos dias, podemos perceber que, em seu centro, encontra-se o problema da violência e dos meios para evitá-la, diminuí-la, controlá-la. Diferentes formações sociais e culturais instituíram conjuntos de valores éticos como padrões de conduta, de relações intersubjetivas e interpessoais, de comportamentos sociais que pudessem garantir a integridade física e psíquica de seus membros e a conservação do grupo social.

Evidentemente, as várias culturas e sociedades não definiram e nem definem a violência da mesma maneira, mas, ao contrário, dão-lhe conteúdos diferentes, segundo os tempos e os lugares. No entanto, malgrado as diferenças, certos aspectos da violência são percebidos da mesma maneira, nas várias culturas e sociedades, formando o fundo comum contra o qual os valores éticos são erguidos. Fundamentalmente, a violência é percebida como exercício da força física e da coação psíquica para obrigar alguém a fazer alguma coisa contrária a si, contrária aos seus interesses e desejos, contrária ao seu corpo e à sua consciência, causando-lhe danos profundos e irreparáveis, como a morte, a loucura, a auto-agressão ou a agressão aos outros.

Quando uma cultura e uma sociedade definem o que entendem por mal, crime e vício, circunscrevem aquilo que julgam violência contra um indivíduo ou contra o grupo. Simultaneamente, erguem os valores positivos – o bem e a virtude – como barreiras éticas contra a violência.

Em nossa cultura, a violência é entendida como o uso da força física e do constrangimento psíquico para obrigar alguém a agir de modo contrário à sua natureza e ao seu ser. A violência é a violação da integridade física e psíquica, da dignidade humana de alguém. Eis por que o assassinato, a tortura, a injustiça, a mentira, o estupro, a calúnia, a má-fé, o roubo são considerados violência, imoralidade e crime.

Considerando que a humanidade dos humanos reside no fato de serem racionais, dotados de vontade livre, de capacidade para a comunicação e para a vida em sociedade, de capacidade para interagir com a Natureza e com o tempo, nossa cultura e sociedade nos definem como sujeitos do conhecimento e da ação, localizando a violência em tudo aquilo que reduz um sujeito à condição de objeto. Do ponto de vista ético, somos pessoas e não podemos ser tratados como coisas. Os valores éticos se oferecem, portanto, como expressão e garantia de nossa condição de sujeitos, proibindo moralmente o que nos transforme em coisa usada e manipulada por outros.

A ética é normativa exatamente por isso, suas normas visando impor limites e controles ao risco permanente da violência.

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in.: Convite à Filosofia, de Marilena Chaui. Ed. Ática, São Paulo, 2000.

12 novembro, 2007

A ética empresarial


Robert C. Solomon
Universidade do Texas, Austin

"O público que se dane. Eu trabalho para os meus accionistas."
William Vanderbilt

1. Introdução

A ética empresarial ocupa uma posição peculiar no campo da ética "aplicada". Tal como os seus equivalentes em profissões como a medicina e o direito, consiste numa aplicação duvidosa de alguns princípios éticos muito gerais ("dever" ou "utilidade", por exemplo) a situações e crises bastante específicas e muitas vezes únicas. Mas, ao contrário destas aplicações, a ética empresarial trata de uma área do empreendimento humano cujos praticantes, na sua maioria, não gozam de um estatuto profissional, e de cujos motivos muitas vezes se pensa (e se diz) serem muito pouco nobres. A cobiça (anteriormente "avareza") é muitas vezes citada como o único motor da vida empresarial, e muita da história da ética empresarial é, consequentemente, pouco lisonjeira para a actividade empresarial. Num certo sentido, podemos seguir o percurso desta história até à época medieval e antiga, quando, além dos ataques à actividade empresarial que encontramos na filosofia e na religião, pensadores tão práticos como Cícero prestaram uma atenção cuidada à questão da equidade nas transacções comerciais correntes. Mas para muita desta história também, a atenção centrou-se quase totalmente sobre esse tipo de transacções particulares, rodeando este campo de um forte sentido de ad hoc, uma prática alegadamente não filosófica e afastada a maior parte das vezes por ser "casuística".

Assim, a disciplina da ética empresarial tal como é praticada hoje em dia não tem mais do que uma década. Há apenas dez anos, era ainda uma amálgama duvidosa de uma revisão rotineira de teorias éticas, algumas considerações gerais acerca do carácter justo do capitalismo e de uma série de casos tornados paradigmáticos — a maior parte deles desgraças, escândalos e desastres mostrando o mundo empresarial no que tem de pior e de mais irresponsável. A ética empresarial era um tópico sem credenciais na filosofia mais corrente, sem conteúdo conceptual próprio. Era um assunto demasiado virado para a prática, até para a "ética aplicada", e, num mundo filosófico encantado por ideias transcendentes e mundos apenas "possíveis", a ética empresarial estava demasiado preocupada com a vulgar moeda corrente das trocas quotidianas — o dinheiro.

Mas a própria filosofia virou-se outra vez para o "mundo real", e a ética empresarial encontrou ou fez o seu lugar na junção entre os dois. Novas aplicações e uma renovada sofisticação na teoria dos jogos e na teoria da decisão social permitiram a introdução de análises mais formais na ética empresarial e, o que é muito mais importante, a interacção com, e a imersão dos, praticantes da ética empresarial no mundo activo dos executivos das grandes empresas, sindicatos de trabalhadores e pequenos empresários consolidou aquilo que tinham sido elementos duvidosamente amalgamados da ética empresarial numa disciplina, atraiu o interesse e atenção dos líderes empresariais e transformou praticantes "académicos" em participantes activos no mundo empresarial. Por vezes, podemos acrescentar, até lhes dão ouvidos.

2. Uma história concisa da ética empresarial

Num sentido amplo, a actividade empresarial existe pelo menos desde os antigos sumérios que há cerca de seis mil anos (de acordo com Samuel Noah Kramer) levavam a cabo uma grande quantidade de trocas comerciais, mantendo registos. Mas o comércio nem sempre foi visto como uma actividade fundamental e respeitável, tal como acontece nas sociedades modernas, e a perspectiva ética sobre o comércio ao longo da maior parte da história tem sido quase totalmente negativa. Aristóteles, que merece ser reconhecido como o primeiro economista (dois mil anos antes de Adam Smith) distinguia dois sentidos diferentes daquilo a que chamava «economia»; o oikonomikos ou economia doméstica, que ele aprovava e considerava essencial para o funcionamento de qualquer sociedade ainda que pouco complexa, e a chrematisike, a troca que tem como objectivo o lucro. Aristóteles acusou esta actividade de ser completamente destituída de virtude e chamou "parasitas" àqueles que se entregavam a tais práticas puramente egoístas. O ataque de Aristóteles à prática repugnante e improdutiva da "usura" manteve a sua força praticamente até ao século XVII. Apenas os marginais, nas franjas da sociedade, e não os cidadãos respeitáveis, se dedicavam a tais actividades. (O Shylock de Shakespeare no Mercador de Veneza era um marginal e um usurário.) Esta é, a traços largos, a história da ética empresarial — o ataque indiscriminado ao comércio e às suas práticas. Jesus expulsou os vendilhões do templo, e os moralistas cristãos de S. Paulo a S. Tomás de Aquino e Martinho Lutero seguiram o seu exemplo, condenando rotundamente a maior parte daquilo a que hoje prestamos homenagem como "o mundo dos negócios".

Mas se a ética empresarial como condenação foi levada a cabo pela filosofia e pela religião, o mesmo aconteceu com a dramática viragem em relação ao comércio que teve lugar no início da idade moderna. Calvino e, em seguida, os Puritanos Ingleses, pregaram as virtudes da poupança e da iniciativa, e Adam Smith canonizou a nova fé em 1776 na sua obra-mestra, A Riqueza das Nações. A nova atitude em relação ao comércio não surgiu, claro está, da noite para o dia; ao invés, baseou-se em tradições com uma longa história. As guildas medievais, por exemplo, tinham estabelecido os seus próprios códigos de "ética empresarial", específicos para cada ofício, muito antes de o comércio se tornar a instituição fundamental da sociedade. Mas a aceitação geral do comércio e o reconhecimento da economia como uma estrutura fundamental da sociedade dependeu de uma maneira completamente nova de pensar acerca da sociedade que exigiu não apenas uma mudança na sensibilidade filosófica e religiosa, mas também, e subjacente a ela, um novo sentido da sociedade e até da natureza humana. Esta transformação pode ser explicada parcialmente em termos de urbanização, de sociedades maiores e mais centralizadas, da privatização de grupos familiares enquanto consumidores, do rápido desenvolvimento tecnológico, do crescimento da indústria e do concomitante desenvolvimento de estruturas, necessidades e desejos sociais. Com a obra clássica de Adam Smith, a chrematisike tornou-se a instituição fundamental e a principal virtude da sociedade moderna. Mas a versão popular degradada da tese de Smith (a cobiça é boa) não era de molde a desembocar na disciplina da ética empresarial (não será isto uma contradição nos termos?), e os discursos moralizadores acerca do comércio mantiveram o seu preconceito antigo e medieval. Homens de negócios como Mellon e Carnegie faziam conferências públicas acerca das virtudes do sucesso e da noblesse oblige dos ricos, mas a ética empresarial enquanto tal foi na sua maior parte desenvolvida por socialistas, como uma diatribe contínua contra a amoralidade do modo empresarial de pensar. Só muito recentemente começou a dominar no discurso acerca do comércio uma perspectiva mais moral e respeitável acerca desta actividade, o que arrastou consigo a ideia de estudar os valores e ideais subjacentes. Podemos facilmente compreender como a liberdade do mercado pode sempre ser uma ameaça aos valores tradicionais e hostil ao controlo governamental, mas já não concluímos de forma tão sofística que o próprio mercado não tem valores ou que os governos servem melhor o bem público do que os mercados.

3. O mito do lucro como objectivo

A ética empresarial já não se preocupa apenas ou fundamentalmente com a crítica do comércio e da sua prática. Os lucros já não são condenados juntamente com a "avareza" em sermões moralizantes e as grandes empresas já não são vistas como monólitos sem rosto e sem alma. A nova preocupação diz respeito a como deve o lucro ser concebido no contexto mais amplo da produtividade e da responsabilidade social, e como podem as grandes empresas, enquanto comunidades complexas, servir tanto os seus empregados como a sociedade na qual se encontram. A ética empresarial evoluiu de um ataque totalmente crítico ao capitalismo e ao "objectivo do lucro", para um exame mais produtivo e construtivo das regras e práticas subjacentes ao comércio. Mas o antigo paradigma — aquilo a que Richard DeGeorge chamou "o mito dos negócios amorais" — persiste, não apenas num público desconfiado e em alguns filósofos de pendor socialista, mas também entre muitas pessoas que se dedicam ao comércio. Posto isto, a primeira tarefa da ética empresarial é abrir caminho por entre alguns mitos e metáforas altamente incriminatórios que, mais do que esclarecer, obscurecem o espírito subjacente que torna a actividade empresarial possível.

Cada disciplina tem o seu próprio vocabulário de auto-glorificação. Os políticos deliciam-se com os conceitos de "serviço público" ao mesmo tempo que procuram o poder pessoal, os advogados defendem os nossos "direitos" na base de pagamentos chorudos — e os professores descrevem aquilo que fazem em termos da nobre linguagem da "verdade e do conhecimento", enquanto gastam a maior parte do seu tempo e energia em política de bastidores. Mas, no caso do comércio, a linguagem de auto-glorificação é frequente e particularmente pouco lisonjeira. Por exemplo, os executivos ainda falam acerca daquilo que fazem em termos do "lucro como objectivo", sem se aperceberem de que a expressão foi inventada pelos socialistas do século XIX como um ataque ao comércio e à sua busca redutora de dinheiro com exclusão de todas as outras considerações e obrigações. É verdade que um negócio visa obter lucros, mas só o faz fornecendo bens e serviços de qualidade, criando empregos e "inserindo-se" na comunidade. Seleccionar os lucros em detrimento da produtividade ou do serviço público como o objectivo central da actividade empresarial é simplesmente provocatório. Os lucros não são, em si, o fim ou o objectivo da actividade empresarial: os lucros são distribuídos e reinvestidos. Os lucros são um meio para montar o negócio e recompensar os empregados, os executivos e os investidores. Para algumas pessoas os lucros podem ser um meio de registar os ganhos, mas mesmo nestes casos o objectivo é o estatuto e a satisfação de "ganhar" e não os lucros em si.

Uma imagem de si que alguns executivos têm, mais sofisticada mas não muito diferente, afirma que os gestores empresariais estão acima de tudo vinculados a uma e apenas uma obrigação: maximizar os lucros dos seus accionistas. Mas não é preciso inquirir se este é de facto o objectivo por detrás da maior parte das decisões de gestão para chamar a atenção para que, ainda que os gestores reconheçam que os seus próprios papéis nos negócios são definidos mais por obrigações do que pelo "objectivo do lucro", esta imagem pouco lisonjeira foi simplesmente transferida para os accionistas (isto é, para os proprietários). Será verdade que os investidores/proprietários se preocupam apenas com a maximização dos seus lucros? Será, afinal, o accionista a encarnação daquele desumano homo economicus completamente destituído de responsabilidade e orgulho cívico, sem qualquer preocupação com as virtudes da empresa de que ele ou ela é proprietário para além das responsabilidades que podem torná-lo vulnerável a processos judiciais onerosos? E se alguns investidores fortuitos, que investem apenas por quatro meses, podem realmente não estar senão interessados em aumentar os seus investimentos em 30 %, como podemos ter tanta certeza de que os gestores da empresa têm alguma obrigação para com eles além de não derreter ou esbanjar intencionalmente o seu dinheiro? A procura do lucro não é o objectivo último e muito menos é o objectivo único dos negócios. É antes um dos muitos objectivos e ainda assim é-o enquanto um meio e não enquanto um fim em si.

É assim que compreendemos mal o comércio: adoptamos uma perspectiva demasiado redutora daquilo que o comércio é, por exemplo, a procura do lucro, e depois retiramos conclusões anti-éticas ou amorais. É este enfoque redutor e injustificado sobre, por exemplo, os "direitos dos accionistas" que tem sido usado para defender alguns dos "takeovers hostis", extremamente destrutivos e certamente improdutivos, de grandes empresas nos últimos anos. Não estou com isto a negar os direitos dos accionistas a um retorno justo, nem as "responsabilidades fiduciárias" dos gestores de uma empresa. Quero apenas dizer que estes direitos e responsabilidades só têm sentido num contexto social mais vasto e que a própria ideia do "lucro como objectivo" como um fim em si — em oposição a uma concepção do lucro como um meio para encorajar e recompensar o trabalho árduo e o investimento, construindo um negócio melhor e servindo melhor a sociedade — é um obstáculo sério à compreensão do rico tecido de objectivos e actividades que compõem o mundo dos negócios.

4. Outros mitos e metáforas dos negócios

Entre os mitos e metáforas mais prejudiciais que encontramos no discurso acerca dos negócios estão aqueles conceitos "darwinistas" másculos como "a sobrevivência do mais apto" e "aquilo lá fora é uma selva" (para a origem destes conceitos, veja-se artigo 44, "O Significado da Evolução"). A ideia subjacente, claro está, é a de que a vida dos negócios é competitiva, e nem sempre justa. Mas estas duas observações óbvias são muito diferentes das imagens de "comer ou ser comido" e "cada um por si" que são vulgares no mundo empresarial. É verdade que o comércio é e deve ser competitivo, mas não é verdade que seja uma actividade assassina, canibal, onde "se faz aquilo que for preciso para sobreviver". Por mais competitiva que uma dada indústria possa ser, assenta sempre sobre uma fundação de interesses partilhados e regras de conduta consensuais, e a competição tem lugar não numa selva mas numa comunidade, a qual presumivelmente serve e da qual depende. A vida empresarial é, antes de mais, fundamentalmente cooperativa. A competição só é possível nos limites de preocupações que são mutuamente partilhadas. E, contrariamente à metáfora da selva de "cada animal por si", o comércio envolve sempre grandes grupos de cooperação baseados na confiança mútua, não apenas as próprias empresas, mas também redes de fornecedores, serviços, clientes e investidores. A concorrência é essencial para o capitalismo, mas confundir isto com concorrência "desenfreada" é minar a ética e também não compreender a natureza da concorrência. (Do mesmo modo, devemos olhar com desconfiança para a metáfora familiar da "guerra" que é popular em tantos conselhos de administração e para a corrente metáfora do "jogo" e a ênfase em "ganhar" que tem tendência para transformar a actividade séria de "ganhar a vida" em qualquer coisa como um desporto auto-contido.)

A metáfora mais persistente, que parece resistir apesar da quantidade de provas acumuladas contra ela, é a do individualismo atomista. A origem da ideia segundo a qual a vida empresarial consiste simplesmente em transacções sobre as quais há acordo mútuo entre cidadãos individuais (evitando a interferência do governo) pode ser encontrada em Adam Smith e na filosofia que dominou a Grã-Bretanha no século XVIII. Mas a maior parte da vida empresarial de hoje consiste em papéis e responsabilidades em empreendimentos cooperativos, sejam eles pequenos negócios familiares ou empresas multinacionais gigantescas. O governo e as empresas são tão frequentemente parceiros quanto opositores (por mais frustrante que por vezes possa parecer o labirinto da "regulação"), seja por meio de subsídios, tarifas e incentivos fiscais ou sob a forma de empreendimentos em estreita cooperação ("Japan, Inc." e projectos tão grandiosos como o do vaivém espacial da NASA). Mas o individualismo atomista não é apenas inadequado perante a complexidade empresarial do mundo dos negócios de hoje; é também ingénuo ao supor que não há quaisquer regras e práticas institucionais subjacentes à mais simples promessa, contrato ou troca. O comércio é uma prática social, e não uma actividade levada a cabo por indivíduos isolados. Só são possíveis porque têm lugar numa cultura com um conjunto de procedimentos e expectativas estabelecidos e estes (à excepção de detalhes) não estão abertos à manipulação individual.

Assim, é um sinal de considerável progresso que um dos modelos dominantes do pensamento empresarial corrente seja a ideia de uma "cultura empresarial". Como em qualquer analogia, não há, claro, uma correspondência estrita, mas é importante considerar as virtudes desta metáfora. É social, e rejeita o individualismo atomista. Reconhece que o lugar das pessoas na organização é a estrutura fundamental da vida empresarial. Aceita abertamente a ideia de uma ética. Reconhece que os valores partilhados são o que mantém uma cultura coesa. Ainda deixa lugar para o individualista rebelde, o empreendedor, mas este ou esta só é possível na medida em que há um papel (e um papel importante) para a excentricidade e a inovação. Mas o problema da metáfora da "cultura" é que também ela tende a ser demasiado auto-contida. Uma empresa não é como uma tribo isolada das Ilhas Trobriand. Uma cultura empresarial é uma parte inseparável de uma cultura mais vasta, é no máximo uma sub-cultura (ou uma sub-sub-cultura), uma unidade funcional especializada que está num órgão que está num organismo. Aliás, o que caracteriza todos estes mitos e metáforas é a tendência para ver o comércio como uma actividade isolada e separada, com valores diferentes dos valores da sociedade circundante. Acabar com esta perspectiva de isolamento é a primeira tarefa da ética empresarial.

5. Ética micro, macro e molar

Podemos muito bem distinguir três (ou mais) níveis de comércio e de ética empresarial, desde o micronível — as regras para uma troca justa entre dois indivíduos, até ao macronível — as regras institucionais ou culturais do comércio para toda uma sociedade ("o mundo dos negócios"). Devemos também circunscrever uma área a que podemos chamar o nível molar da ética empresarial, e que diz respeito à unidade básica do comércio nos nossos dias — a empresa. A micro-ética nos negócios é, claro, uma parte integrante da ética tradicional — a natureza das promessas, as consequências e outras implicações das acções de um indivíduo, o fundamento e a natureza dos diversos direitos individuais. O que é específico da micro-ética dos negócios é a ideia de troca justa e, juntamente com ela, a noção de um salário justo, de tratamento justo, do que pode ser considerado uma "pechincha" e do que, pelo contrário, constitui um "roubo". A noção aristotélica de justiça "comutativa" é aqui particularmente útil, e mesmo os antigos se preocupavam já, de tempos a tempos, com a questão de saber se, por exemplo, o vendedor de uma casa estava obrigado a informar o potencial comprador de que o telhado tinha chegado ao seu limite e podia deixar entrar água às primeiras chuvas fortes.

Por seu lado, a macro-ética tornou-se uma parte integrante das questões mais vastas acerca da justiça, da legitimidade e da natureza da sociedade que constituem a filosofia social e política. Qual é a finalidade do "mercado livre" — ou é este em algum sentido um bem em si mesmo, com o seu próprio telos? São os direitos de propriedade privada básicos, precedendo de algum modo a convenção social (como John Locke ou, mais recentemente, Robert Nozick, defenderam) ou deve o mercado ser também concebido como uma prática social complexa da qual os direitos são apenas um ingrediente entre outros? Será o sistema de mercado livre "justo"? Será a maneira mais eficiente de distribuir bens e serviços numa sociedade? Prestará suficiente atenção a casos de necessidade desesperada (onde uma "troca justa" nem sequer está em causa)? Prestará suficiente atenção ao mérito, nos casos em que não está garantido que haja procura suficiente de virtude para que esta seja recompensada? Quais são as funções legítimas (e ilegítimas) do governo na vida dos negócios, e qual é a função da regulação governamental? Por outras palavras, a macro-ética é uma tentativa de ter uma imagem global, de compreender a natureza do mundo dos negócios e das suas funções próprias.

Mas a unidade "molar" definitiva do comércio moderno é a empresa, e as questões centrais da ética empresarial tendem a dirigir-se declaradamente aos directores e empregados daqueles poucos milhares de empresas que determinam a maior parte da vida comercial mundial. São, especificamente, questões que dizem respeito ao papel da empresa na sociedade e ao papel do indivíduo na empresa. Assim, não é de surpreender que os assuntos mais estimulantes se encontrem nos interstícios dos três níveis de discurso ético, por exemplo, a questão da responsabilidade social da empresa — o papel da empresa na sociedade mais vasta —, e questões de responsabilidades definidas pelo cargo — o papel do indivíduo na empresa.

6. A empresa na sociedade: a ideia de responsabilidade social

O conceito central na maior parte da ética empresarial mais recente é a ideia de responsabilidade social. É também um conceito que tem irritado muitos dos entusiastas do mercado livre tradicional e promovido alguns argumentos incorrectos ou enganadores. O mais famoso será talvez a diatribe do prémio Nobel da Economia Milton Friedman, no New York Times (13 de Setembro de 1970), intitulada "A responsabilidade social dos negócios é aumentar os seus lucros". Neste artigo, Friedman chamava aos homens de negócios que defendiam a ideia de responsabilidade social da empresa "fantoches involuntários das forças intelectuais que estão a minar as bases de uma sociedade livre" e acusava-os de "pregar um socialismo puro e duro". O argumento de Friedman consiste essencialmente em afirmar que os gestores de uma empresa são empregados dos accionistas e, enquanto tais, têm uma "responsabilidade fiduciária" de maximizar os seus lucros. Dar dinheiro para caridade ou outras causas sociais (excepto enquanto actividades de relações públicas visando aumentar os negócios) e envolver-se em projectos comunitários (que não aumentem os negócios da empresa) é equivalente a roubar os accionistas. Mais ainda, não há qualquer razão para supor que uma empresa ou os seus empregados têm alguma competência ou conhecimento especial no âmbito das políticas públicas, logo, quando se envolvem em actividades comunitárias (enquanto gestores da empresa, não enquanto cidadãos privados agindo em seu próprio nome), estão não só a ultrapassar as suas competências, como também a violar as suas obrigações.

Algumas das falácias presentes neste raciocínio têm a ver com a perspectiva redutora do comércio como se estivesse orientado para o lucro, e com o retrato unidimensional e muito pouco lisonjeiro do accionista que foi mencionado anteriormente; outras ("socialismo puro e duro" e "roubar") são simplesmente excessos retóricos. O argumento da "competência" (também defendido por Peter Drucker no seu influente livro sobre gestão, Management) só faz sentido para casos em que as empresas levem a cabo projectos de engenharia social que estejam de facto para além das suas capacidades; mas será que é preciso competências especiais ou conhecimentos profundos para ter preocupações acerca do emprego discriminatório, ou das práticas de promoção dentro da empresa, ou dos efeitos devastadores dos lixos industriais sobre a paisagem envolvente? A resposta geral a argumentos do tipo do de Friedman que recentemente se tornou popular na ética empresarial pode ser sintetizada num modesto jogo de palavras: em vez do "accionista" (stockholder), os beneficiários das responsabilidades sociais da empresa são as partes interessadas (stakeholders), de que os accionistas são apenas uma subclasse. Os stakeholders de uma empresa são todos os que são afectados e que têm direitos e expectativas legítimos em relação às actividades da empresa, o que inclui os empregados, os consumidores e os fornecedores, assim como a comunidade envolvente e a sociedade no seu conjunto. A vantagem deste conceito é que ele permite expandir muito o enfoque das preocupações empresariais sem perder de vista as virtudes e capacidades particulares da própria empresa. Considerada deste modo, a responsabilidade social não é um fardo adicional sobre a empresa, mas uma parte integrante das suas preocupações essenciais, servir as necessidades e ser justo não apenas para com os seus investidores ou proprietários, mas também para com aqueles que trabalham, compram, vendem, vivem perto ou são de qualquer outro modo afectados pelas actividades que são exigidas e recompensados pelo sistema de mercado livre.

7. Obrigações para com os stakeholders: consumidores e comunidade

Os gestores das empresas têm obrigações para com os seus accionistas, mas também têm responsabilidades para com outras partes interessadas (stakeholders). Em particular, têm obrigações para com os consumidores e também para com a comunidade circundante, assim como para com os seus próprios funcionários (ver secção 8). O objectivo da empresa é, afinal de contas, servir o público, seja fornecendo produtos e serviços desejados e desejáveis, seja não prejudicando a comunidade e os seus cidadãos. Não se pode dizer, por exemplo, que uma empresa está a cumprir o seu objectivo público se está a poluir o ar ou as reservas de água, se está a estrangular o trânsito ou a açambarcar recursos comuns, se está (ainda que indirectamente) a promover o racismo ou o preconceito, se está a destruir a beleza natural do ambiente, ou se está a ameaçar o bem-estar financeiro ou social dos cidadãos locais. Em relação aos consumidores, a empresa tem a obrigação de fornecer bens e serviços de qualidade. Tem a obrigação de garantir que os seus produtos e serviços são seguros, através de investigação e de instruções adequadas, de avisos contra eventuais utilizações incorrectas. Os produtores são e devem ser responsáveis pelos efeitos perigosos e pela má utilização previsível dos seus produtos, por exemplo, a probabilidade de uma criança engolir uma peça pequena e facilmente destacável de um brinquedo feito especialmente para o grupo etário a que ela pertence; e hoje alguns grupos de defesa do consumidor sugerem que tal responsabilidade não deve ser excessivamente qualificada pela alegação de que "se trata de adultos que sabiam ou deviam saber os riscos do que estavam a fazer". Esta última exigência aponta, no entanto, para uma série de preocupações problemáticas correntes, especificamente, a presunção geral de maturidade, inteligência e responsabilidade por parte do consumidor e a questão dos limites razoáveis da responsabilidade por parte do produtor. (É óbvio que às crianças se aplicam considerações especiais.) Em que medida deve o produtor tomar precauções contra utilizações dos seus produtos que sejam claramente idiossincráticas ou idiotas? Que restrições devem ser impostas a produtores que vendem e distribuem produtos comprovadamente perigosos, por exemplo, cigarros e armas de fogo — ainda que haja uma considerável procura desses produtos por parte dos consumidores — e deve o produtor ser responsável por aquilo que é claramente um risco previsível para o consumidor? De facto, cada vez mais se coloca a questão de saber se e em que medida devemos reinstalar aquele aviso agora antigo, "Consumidor, tem cuidado", para contrariar a tendência descontrolada em direcção à irresponsabilidade do consumidor e à responsabilização empresarial indiscriminada.

A inteligência e a responsabilidade do consumidor estão também em causa no tópico muito discutido da publicidade, contra a qual algumas das mais sérias críticas das práticas e negócios correntes têm sido dirigidas. A defesa clássica do sistema de mercado livre consiste em afirmar que ele satisfaz a procura. Mas se forem os produtores a criar de facto a procura para os produtos que produzem, então esta defesa clássica perde o seu fundamento. Efectivamente, afirma-se que publicidade é em si coerciva, na medida em que interfere com a livre escolha do consumidor, o qual deixa de estar numa posição em que decide a melhor maneira de satisfazer as suas necessidades e é em vez disso submetido a um bombardeamento de influências que podem muito bem ser irrelevantes ou até contrárias a essas necessidades. E mesmo quando a desejabilidade do produto não está em causa, há questões muito reais acerca da publicidade de certas marcas e da criação artificial de "diferenciação de produtos". E há ainda aquelas questões já familiares acerca do gosto — na fronteira (e por vezes para além dela) entre a ética e a estética. Há o uso do sexo — muitas vezes tentador e por vezes declarado — para aumentar o poder de atracção de produtos que vão da pastilha elástica aos automóveis; há as promessas implícitas, mas obviamente falsas, de sucesso e aceitação social se comprarmos este sabonete ou aquela pasta de dentes; e há as representações ofensivas das mulheres ou de minorias e muitas vezes da natureza humana enquanto tal, apenas para vender produtos que a maior parte de nós podia perfeitamente dispensar. Mas será que este consumo supérfluo e o gosto (ou falta dele) que o vende é uma questão ética? Será que se pode realmente esperar que alguém acredite que a sua vida irá mudar com uma pitadinha de mentol ou um chão de cozinha que não precisa de ser encerado?

Uma questão muito mais séria é, claro está, a mentira pura e simples em publicidade. Mas aquilo que constitui uma "mentira" não é de todo evidente neste mundo da sedução, do kitsch e da hipérbole. Talvez ninguém acredite realmente que uma certa pasta de dentes ou um par de calças de ganga de marca possa garantir o seu sucesso com a namorada dos seus sonhos (embora milhões estejam dispostos a arriscar, porque nunca se sabe), mas quando um produto tem efeitos que podem muito bem ser fatais, a exactidão da publicidade é considerada com muito mais cuidado. Quando um produto médico é publicitado com base em informação técnica enganosa, incompleta ou simplesmente falsa, quando um "remédio para a constipação" é vendido ao balcão com a promessa, mas sem qualquer prova concreta, de que pode aliviar os sintomas e evitar complicações, quando efeitos secundários conhecidos e perigosos são ocultados sob a afirmação genérica "Como no caso de qualquer outro medicamento, consulte o seu médico", então a aparentemente simples "verdade na publicidade" torna-se um imperativo moral e alguns princípios éticos (se não mesmo a lei) foram violados.

Tem-se argumentado frequentemente que, num mercado livre funcionando idealmente, a única publicidade que devia ser necessária ou permitida seria a pura informação relativa à utilidade e qualidade do produto. Mas, em algumas circunstâncias, o consumidor médio pode não ter nem ser capaz de compreender a informação relevante acerca do produto em causa. No entanto, em muitos casos, os consumidores assumem muito pouca responsabilidade pelas suas próprias decisões e não se pode com justiça culpar a publicidade pela sua irresponsabilidade ou irracionalidade. As empresas têm responsabilidades para com os seus clientes, mas os consumidores também têm responsabilidades. A ética empresarial não é uma questão de responsabilidade empresarial apenas, mas de um conjunto interligado de responsabilidades mútuas.

8. O indivíduo na empresa: responsabilidades e expectativas

A parte interessada (stakeholder) mais maltratada no padrão das responsabilidades empresariais será talvez o empregado da empresa. Na teoria tradicional do mercado livre, o trabalho do empregado é ele próprio mais uma mercadoria, sujeita às leis da oferta e da procura. Mas enquanto que podemos vender a preço de saldo alfinetes ou peças de máquina que já não têm procura, ou simplesmente desfazermo-nos deles, o empregado é um ser humano, com necessidades e direitos muito reais e distintos do seu papel na produção ou no mercado. Um espaço de trabalho apertado e desconfortável ou longas e duras horas de trabalho podem reduzir as despesas ou aumentar a produtividade, e pagar salários de sobrevivência a empregados que, por uma razão ou outra, não podem, não se atrevem ou não sabem como queixar-se, pode aumentar os lucros, mas tais condições e práticas são hoje em dia reconhecidas por todos menos pelo mais empedernido "darwinista" como altamente anti-éticas e legalmente injustificáveis. Mesmo assim, o modelo do trabalho como "mercadoria" ainda tem uma forte influência em muito do pensamento empresarial, tanto no que diz respeito a gestores e executivos como a trabalhadores, tanto especializados como indiferenciados. É por esta razão que muita da mais recente ética empresarial centrou a sua atenção em noções como os direitos dos empregados e, a partir de uma perspectiva bastante diferente, é também por esta razão que a velha noção de "lealdade à empresa" voltou a merecer atenção. Afinal, se uma empresa trata os seus empregados como meras peças descartáveis, ninguém pode ficar surpreendido se os empregados começarem a tratar a empresa com uma mera fonte transitória de salários e benefícios.

No entanto, a outra face deste quadro perturbador é a também renovada ênfase dada à noção de papéis e responsabilidades do empregado, uma das quais é a lealdade à empresa. Nunca é demais sublinhar que "lealdade" aqui é uma preocupação que funciona nos dois sentidos; o empregado pode, em virtude do seu emprego, ter obrigações especiais para com a empresa, mas a empresa tem por sua vez obrigações para com o empregado. Mas é perigoso colocar ênfase em conceitos como "lealdade" sem esclarecer muito bem que a lealdade está ligada não apenas ao emprego em geral mas também ao papel e responsabilidades particulares de cada um. Um papel, segundo R.S. Downie, é "um aglomerado de deveres e direitos com algum tipo de função social" — neste caso, uma função na empresa (Roles and Values. p. 128). Há certos aspectos do papel e das responsabilidades de cada um que podem ser especificados num contrato de trabalho e na lei, mas muitos deles — por exemplo, os costumes locais, os padrões de deferência e outros aspectos daquilo a que há pouco chamámos "cultura empresarial" — só se tornam evidentes com o tempo e através do contacto com outros empregados. Mais ainda, não se trata simplesmente de "fazer o nosso trabalho" mas, por razões de ética e de economia, de fazer o nosso trabalho o melhor possível. A este respeito parece-me correcto o que diz Norman Bowie: "Um trabalho nunca é apenas um trabalho". Tem também uma dimensão moral: orgulho no nosso produto, cooperação com os colegas e preocupação com o bem-estar da empresa. Mas, é claro, estas obrigações decorrentes do papel têm os seus limites (por mais que certos gestores tentem negar isto para sua conveniência). O comércio não é um fim em si, está ao invés inserido e é sustentado por uma sociedade que tem outras e mais importantes preocupações, normas e expectativas.

Ouvimos muitas vezes empregados (e até mesmo executivos de alto nível) queixarem-se de que os seus "valores empresariais estão em conflito com os seus valores pessoais". O que isto normalmente significa é que, sugiro eu, certas exigências feitas pelas empresas são anti-éticas ou imorais. Aquilo a que a maior parte das pessoas chama os seus "valores pessoais" são de facto os valores mais profundos e amplos da sua cultura. E é neste contexto que devemos compreender a já familiar figura trágica da vida empresarial contemporânea — o denunciante. Este não é simplesmente um excêntrico que não consegue adaptar-se à organização que ameaça denunciar. O denunciante reconhece não ser capaz de tolerar a violação da moral ou da confiança pública e sente-se na obrigação de fazer alguma coisa. As biografias da maior parte dos denunciantes não são uma leitura agradável, mas a sua existência e ocasional sucesso testemunham amplamente as obrigações interligadas das empresas, dos indivíduos e da sociedade. Aliás, talvez o resultado particular mais importante da emergência da ética empresarial no espaço público tenha sido chamar a atenção para esses indivíduos e dar uma nova respeitabilidade àquilo que os seus empregadores vêem incorrectamente como nada mais do que falta de lealdade. Mas quando a exigência de fazer negócio entra em conflito com a moral ou o bem-estar da sociedade, são os negócios que têm que ceder, o que é, talvez, o fundamental da ética empresarial.

Robert C. Solomon

    Referências
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  • Kramer, S.N.: History Begins at Sumer (Nova Iorque: Doubleday, 1959).
  • Locke, J.: Segundo Tratado do Governo (1690); ed. de P. Laslett (Cambridge: Cambridge University Press, 1988).
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  • Solomon, R. (com Hanson, K.): Above the Bottom Line (San Diego: Harcourt Brace Jovanovich, 1983).
  • Smith, A.: A Riqueza das Nações (1776); 6.a ed. (Londres: Methuen, 1950).
    Leitura complementar
  • Beauchamp, T. and Bowie, N., orgs.: Ethical Theory and Business (Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall, 1979).
  • Ciulla, J.: "Casuistry and the case for business ethics", Business and the Humanities (1989 Ruffin Lectures), org. por E. Freeman (Nova Iorque: Oxford University Press, 1990).
  • Freeman, R.E. e Gilbert, D.: Corporate Strategy and the Search for Ethics (Englewoods Cliffs, NJ.: Prentice-Hall, 1988).
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  • Goodpaster, K. e Mathews, J.: "Can a corporation have a conscience?" Harvard Business Review, 60, no. 1, 132-41.
  • Pastin, M.: The Hard Problems of Management (São Francisco: Jossey-Bass, 1986).
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  • Velasquez, M.: Business Ethics (Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall, 1982).

Tradução de Alexandra Abranches
Artigo retirado de A Companion to Ethics, org. por Peter Singer (Blackwell, 1993)

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in.: Criticanarede.com

Foto: Jarbas Felicio Cardoso

Relativismo, algumas questões filosóficas


Por Anthony Weston

A

O relativismo moral fundamenta-se na ideia de que os valores morais variam muito de povo para povo e de cultura para cultura. Este é chamado o relativismo descritivo. Mas podemos perguntar: Haverá realmente desacordo real entre os valores morais? Isto é, será que os nossos desacordos são tão profundos quando afirmam os relativistas, ou será que diferentes valores morais surgem de diferentes crenças factuais acerca do mundo?

Os primeiros exploradores europeus descobriram que alguns grupos de esquimós (os Enuit) deixavam, por vezes, os seus velhos e doentes a morrer no frio. Este facto entrou em choque com a atitude europeia, supostamente, de respeito e de assistência para com os velhos.

Mas outros factos foram descobertos. O primeiro foi que estes grupos, durante o Inverno, viviam entre a sobrevivência e a fome e que, na Primavera, tinham que se mover rapidamente para encontrar comida. Muitas das pessoas velhas simplesmente não conseguiam acompanhar o passo. Deixá-las para trás era uma questão de sobrevivência social — uma escolha que nós, nas mesmas circunstâncias, se calhar também teríamos que tomar.

Outra descoberta foi que os Esquimós acreditavam na vida depois da morte, e acreditam que as pessoas entram na próxima vida nas mesmas condições em que deixam esta. Assim, permitir, ou mesmo encorajar, os velhos a morrer depois de perderem a utilidade social não é evidência de crueldade ou de desrespeito para com a vida. Se partilhássemos as crenças dos esquimós, então presumivelmente faríamos o mesmo.

Aquilo que parecia um desacordo acerca dos valores morais tornou-se num desacordo acerca de factos. Podemos perguntar até que ponto outros alegados desacordos são reais. Será que somos assim tão diferentes? Será o relativismo descritivo verdadeiro? Aponta alguns desacordos morais actuais que possam, depois de examinados, ser resolvidos da mesma forma que o caso dos esquimós? Haverá algum que não possa ser resolvido?

B

Sem dúvida que existe desacordo acerca dos valores morais. Mas o que prova isto exactamente? Será o desacordo a última palavra? Podemos muito bem tomar os desacordos como pontos de partida — algo que nos faz pensar e aprender — e não como pontos de chegada. O facto de algumas pessoas serem racistas não prova que o racismo é errado apenas para nós. Prova simplesmente que as pessoas têm alguma coisa a aprender.

Podes perguntar: depois de tanto pensar e aprender, será que o desacordo moral continuaria a existir? Será evidente que continuaríamos a discordar sobre questões fundamentais? Se sim, como resolver estas questões?

C

Vamos supor que o relativismo descritivo é verdadeiro. Suponhamos que realmente diferimos muito uns dos outros e que isto continuará a ser assim mesmo depois de muita argumentação e discussão. Mas o que nos diz isto sobre o relativismo no sentido prescritivo — a tese de que os valores e argumentos morais também são relativos?

Seguir-se-á, do relativismo descritivo, que não existe uma única resposta correcta para as questões morais? Não necessariamente. Simples diferenças factuais, só por si, não provam que não existe um modelo correcto para resolver as questões morais. Talvez todas as perspectivas estejam erradas, menos uma. As pessoas discordam quanto a todos os tipos de factos (será a Terra redonda? Será que a vitamina C previne as constipações?), mas isso não implica que não haja uma resposta verdadeira. Haverá alguma coisa tão especial acerca dos juízos de valor que os torna diferentes dos "factos"? Talvez, mas se pensares que sim, tenta explicar o que é. Apresenta a argumentação.

D

Vamos supor que o relativismo prescritivo é verdadeiro, isto é, que provavelmente não existe a resposta correcta para as questões morais, e que toda a resposta é tão boa como qualquer outra. Que implicações terá essa suposição? Será que, por exemplo, implica a tolerância, isto é que devemos viver aceitando as diferenças dos outros? Muitos pensarão que sim. Sem dúvida que o relativismo é compatível com a tolerância. Mas também é compatível com a intolerância. Se as questões morais não têm uma única resposta, e se o tema da tolerância é, ele próprio moral, então segue-se que a tolerância é tão boa quanto a intolerância e vice-versa.

Pensas que o relativismo moral implica a tolerância? Se sim, como construir o argumento sem cair no próprio relativismo? Se não, como podes defender a tolerância? Será que a tolerância necessita de um argumento não relativista?

E

A que situações é que relativismo prescritivo se aplica realmente? Que diferença fará na prática? Supõe que o relativista afirma que nós não podemos discutir com os canibais sobre o canibalismo. Mas com que frequência discutimos com canibais? A maior parte das nossas discussões é feita com pessoas que partilham as nossas ideias. Eu nunca discuti com um canibal, embora o faça constantemente com os meus filhos (cujos hábitos alimentares também têm muito que se lhes diga). Com eles eu posso discutir — eles crescem na nossa cultura, e têm alguma aprendizagem a fazer.

Por outro lado, às vezes pedem-nos para fazermos juízos morais que atravessam diferentes culturas, como, quando os portugueses foram chamados a dar a sua opinião sobre as condutas da Indonésia em relação a Timor Leste. Será correcto exigir isso das pessoas? O que diria o relativista acerca disso? O que pensar da resposta relativista?

F

Será que o relativismo, ele próprio, não varia de pessoa para pessoa e de cultura para cultura? Será que, pelo facto de algumas pessoas discordarem acerca da verdade do relativismo isso significa que essa verdade é ela própria relativa? Se responderes que não — isto é que o relativismo pode ser verdadeiro ou, pelo menos defensável, apesar das discordâncias — então por que não podem ser os valores morais? Se responderes que sim — que o relativismo é ele próprio relativo — então qual é a questão? (isto pode ser enganador).

G

Finalmente, para aqueles que rejeitam o relativismo, fica a questão de saber se o relativismo não terá também alguma coisa ensinar-nos. A complexidade de muitas situações morais, não tornará muito difícil defender que há uma única resposta correcta? Não será o relativismo a afirmação da necessidade de um espaço moral, onde possamos aprender com os nossos erros? Não será o relativismo a defesa de um espírito livre, eticamente mais flexível, e que nos recorda que a verdade não é facilmente alcançável? Não será necessário olhar para as coisas de outros pontos de vista?

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Anthony Weston
Tradução de Luís Filipe Bettencourt
Texto retirado de A 21st Century Ethical Toolbox, de Anthony Weston (Oxford University Press, 2001, pp. 17-19.)

in.: Criticanarede.com

Foto: Jarbas Felicio Cardoso