Por Jarbas Cardoso*
É outubro de 2015, mais precisamente dia 23.
O canal de TV CNN, assim como os demais e principais meios de comunicação globais,
transmitem de forma midiática e a todo momento a passagem do furacão Patrícia pelo
México. Segundo informações e análises de especialistas, Patrícia é o furacão
mais forte que se tem registrado até o momento, com ventos que poderão chegar até
400 km/h, fazendo de seu poder de destruição equivalente ao de uma bomba
nuclear. Do mesmo modo que aos canais de TV, os portais de internet de todos
os jornais postam textos, vídeos e imagens captadas por satélites. Essas informações
são disponibilizadas e atualizadas a todo o instante, sendo replicadas e compartilhadas
via Feed de notícias nas redes
sociais. Qualquer pessoa, de qualquer parte do mundo e em tempo real, pode acompanhar
as informações da trágica e pré-anunciada fatalidade, que poderá, em poucos
momentos, destruir a costa oeste do México.
O relato sobre o furacão Patrícia,
independente de sua gravidade, é meramente um fato, assim como muitos outros que
poderiam ser exemplificados para caracterizar a contemporaneidade. Período que
é caracterizado por avanços marcantes, em especial, na área da tecnologia e da
comunicação, os quais fazem da informação algo imediato, com conectividade global
e sem fronteiras. Essa rapidez de levar e trazer as informações em abrangência
global acaba por alterar a concepção de espaço e tempo e na forma de pensar e ser
das pessoas.
É sobre esse fenômeno, sinônimo de fluidez
e conectividade global, que Zygmunt Bauman, sociólogo e pensador da
contemporaneidade, tece sua crítica. Segundo ele, vivemos em tempos líquidos onde
todas as esferas da vida são afetadas. Nessa era de liquidez, Bauman aponta
para dois aspectos centrais. O primeiro é referente a “vontade de liberdade”
inerente à constante busca pela individualização. O segundo é sobre a velocidade,
responsável pela “incoerência” das relações e pela alta exploração dos sujeitos.
As coisas e as relações não são mais feitas para durar, há sempre novos
“produtos”, mais modernos, atraentes e estimulantes para serem consumidos.
DA REDUÇÃO DO ESTADO À
ANGUSTIA DAS RELAÇÕES PESSOAS
Para o filósofo Pondé, que analisa o
pensamento de Bauman, na modernidade o Estado é cada vez menor, e quanto menor,
menos atrapalha. Ele, o Estado, é cada vez mais “enxuto” e se descobriu como uma
empresa ineficiente. Para o Estado funcionar de forma eficiente precisa
encolher, e ao em encolher, o Estado vai se desfazendo de suas atribuições (a
questão pública/social), sendo assim, o mesmo vai abrindo espaço para a
iniciativa privada. Essa última, por sua vez, está mergulhada no mercado livre,
o qual é o mais líquido de todos. Nesse cenário a cultura de mercado vai
tomando conta de todas as relações, do mundo do trabalho, da educação, da
cultura e do amor. Para Bauman, o mercado toma conta do amor, afirma Pondé.
Em
seu livro Amor Líquido, Bauman faz um recorte e direciona sua análise sobre as
relações na modernidade, ou melhor, sobre a fragilidade dos laços humanos. Crítico
da contemporaneidade afirma que existe uma fragmentação na vida social. A vida
é dividida em episódios, tornando a(s) sociedade(s) individualizada(s). Essa
fragmentação acaba por afetar relações, entre homem e mulher. Na atualidade
quando se está em um relacionamento, as pessoas são atormentadas pela exigência
de “qualidade”, na qual cada um dos envolvidos exigi “qualidade” na relação como
se exige de um produto comprado em uma loja. Se a relação não está dentro de
certa expectativa, a mesma é desfeita para iniciar uma nova relação. Esta
exigência de “qualidade” nas relações se torna uma sombra, porque as pessoas
passam a observar a mesma, o tempo todo. A relação deve funcionar perfeitamente
e segundo os desejos e vontades de cada um, do contrário, há a possibilidade de
rompimento. As pessoas estão em uma relação, mas sabem que existem outras
oportunidades, outras ofertas no meio, ou melhor no mercado, sabem também que
podem ser trocadas, eis aí um dos medos em aprofundar uma relação, gerando incerteza
e angustia.
Aprofundando a análise
sobre a problemática dos relacionamentos, Bauman argumenta sobre o “sexo puro”
existente em nossos dias, o qual é pautado em “encontro puramente sexual”,
onde a inexistência de “restrições” compensaria a fragilidade do engajamento. A
larga publicidade do sexo e as angústias dos relacionamentos superficiais aumentam
as incertezas da líquida vida moderna:
“Nenhuma
união de corpos pode, por mais que se tente, escapar à moldura social e cortar
todas as conexões com outras facetas da existência social. Privado de seu
antigo prestígio social e de significados que antes eram socialmente
aprovados, o sexo cristalizava a incerteza aflitiva e alarmante que se tornou a
principal ruína da líquida vida moderna.” (Bauman, 2006, p.74).
Ainda para Bauman,
“qualificar os parceiros sexuais tornou-se o primeiro foco de ansiedade” pois mesmo
no casamento, algo que deveria realizar o enlace de um casal, gerando
confiança e segurança para ambos, esse, agora, é cenário de insegurança e
angústia. A instituição casamento entrou na liquides das relações. Pois, os atuais
poderes constituídos, já não parecem interessados em traçar a fronteira entre
sexo “correcto” e “perverso”. Na liquidada era moderna muitas formas de
atividade sexual não são apenas toleradas, mas frequentemente indicadas como
terapias úteis. Isso tudo para oferecer objetivos “socialmente úteis” afirma
Bauman. No fundo o objetivo único da exploração sexual é para fins
mercadológico.
“A
líquida sociedade moderna descobriu uma forma de explorar a propensão/receptividade
humana a sublimar os instintos sexuais sem recorrer à repressão, ou pelo menos
limitando-a radicalmente. Isso aconteceu graças à progressiva desregulação do
processo sublimatório, agora difuso e disperso, sempre a mudar o tempo todo
mudando de direção e guiado pela sedução dos objetos de desejo sexual em
oferta, e não por quaisquer pressões coercitivas” (Bauman, 2006, p. 81).
Segundo Bauman é preciso ter identidade.
Isso é importante, mas nossa sociedade é, atualmente, redefinida a cada
momento. Passamos a vida redefinindo nossa identidade, porque há modelos e formas
de vida atraentes e tentadoras, que mudam constantemente em nossas vidas.
Coisas que entram e saem da moda rapidamente. O que é hoje, amanhã já não é
mais. São mudanças constantes e não duradouras.
A LÍQUIDA ERA MODERNA E A RACIONALIDADE COMERCIAL DO
SEXO
A contemporaneidade acaba por influir
no enfraquecimento dos relacionamentos, exatamente devido ao frenesi constante
de informações e mudanças. Se o amor,
em sua concepção tradicional, está disposto ao sacrifício e à renúncia em
função do ser amado, o “amor líquido”, por temer o futuro, aposta e é
incentivado por especialista, em relacionamentos de curto prazo movidos,
principalmente, pelo impulso e oportunismo. Vivemos, ou sofremos mudanças
visíveis de configurações, percepção e interação em relação ao nosso tempo.
Bauman critica a
racionalidade e o comércio do sexo, pois a cultura do consumo fez do sexo algo racional
ao mesmo tempo que um negócio, descaracterizando toda uma magia do encanto e do
amor. O Eros está em todo o lugar, mas não permanece em um mesmo local por
muito tempo. O sexo deixou de ter função da procriação (compromissos que
visavam a paternidade e maternidade), abrindo-se uma competição com a medicina
para o papel reprodutivo. Fazendo referência ao sexólogo Sigush, o pensador da
líquida era moderna afirma que existe a possibilidade de “escolher um filho num
catálogo de doadores atraentes quase da mesma forma como eles (os consumidores
contemporâneos) estão acostumados a comprar pelo correio ou por meio de
revistas de moda”.
QUANDO ESTÁ COM SEU TELEMÓVEL, NUNCA SE ESTÁ FORA
OU LONGE
As redes sociais são feitas
para conectar e para desconectar. A atividade do novo tipo de amizade, como por
exemplo, do Facebook, é muito fácil conectar e estabelecer amizades, mas é
fácil também desconectar e terminar uma relação. Em uma sociedade que não para
de receber e enviar mensagens no telemóvel, a crítica do pensador está voltada
para o fato de que tal apego a esta dinâmica tecnológica de relação diminuiu a
proximidade, mas beneficiou o afastamento. Segundo o mesmo, não é a facilidade
de estabelecer conexão o que mais cativa as pessoas, pelo contrário, é a
facilidade de rompê-las. É muito fácil não mandar um e-mail, excluir e bloquear
alguém na conta do Facebook.
Esse tipo de afastamento
também afeta o ambiente familiar. Os lares deixaram de ser espaços de intimidade
em meio ao mundo externo. Ocorreu um rápido resfriamento dos laços afetivos
familiares. Entramos em nossas casas e fechamos a porta, e então entramos em
nossos quartos separados e fechamos a porta. A casa torna-se um centro de lazer
multiuso em que os membros da família podem viver, por assim dizer,
separadamente lado a lado.
Onde há necessidade, há
hipótese de lucro. Na era cinzenta, o mercado vai ao limite e quer vender até
a solidariedade, um sorriso amigo, o convívio ou a ajuda no momento de
necessidade, argumenta Bauman, fazendo o alerta para a tentativa do mercado
entrar inclusive no que chama de Economia Moral.
ACEITAR O
PRECEITO DO AMOR AO PRÓXIMO É O ATO DE ORIGEM DA HUMANIDADE
A
frase acima diz muito sobre o que Bauman quer nos passar. Referindo-se a Freud,
que aqui simplificamos através do jargão “civilização ou barbárie”, pode-se afirmar
que ele toca na ética kantiana, não necessariamente sobre imperativo categórico de Agir apenas segundo máxima na qual possas ao
mesmo tempo desejar que se torne lei universal, e sim na segunda máxima: Age de tal
forma que trates a humanidade, na tua pessoa ou na pessoa de outrem, sempre
como um fim e nunca apenas como um meio.
Esses são preceitos que a contemporaneidade, em um exercício pedagógico, deve sugestivamente
resgatar. Primeiro
porque as pessoas têm desejos e objetivos, e as outras coisas têm valor para
elas, em relação aos seus projetos. Ou melhor, as meras “coisas” têm valor
apenas como meios para fins, sendo os fins humanos que lhes dão valor. Segundo,
e ainda mais importante, os seres humanos têm um valor intrínseco, i.e.,
dignidade, porque são agentes racionais, ou seja, agentes livres com
capacidade para tomar as suas próprias decisões, estabelecer os seus próprios
objetivos e guiar a sua conduta pela razão. Ou seja, não é preciso amar
o próximo, ou esperar algo em troca, mas é necessário respeitá-lo como sujeito,
um fim.
OS ESPAÇOS URBANOS COMO ESPAÇOS DE
SEGREGAÇÃO
Bauman diz que os nossos antepassados
dispunham de poucos instrumentos, se é que tivessem algum, para agir
efetivamente a longa distância. Mas estavam resguardados da exposição do
sofrimento humano global. As relações e os acontecimentos eram locais, face a
face.
Hoje com a ampliação dos espaços de
comunicação de forma global, as pessoas estão conectadas no ciberespaço e trancadas
em suas casas, em seus bairros ou condomínios muito bem protegidos. Isso para
os que tem condição financeira. As casas, em muitos espaços urbanos, não estão
mais para integrar as pessoas à sociedade, e sim para protegê-las da própria
cidade. As cidades tornaram-se depósitos de lixo para os ploblemas gerados
globalmente. Não são mais espaços de sociabilidade, de convívio e segurança,
afirma Bauman. O público (Estado) como não tramita no ciberespaço, para o qual
não há fronteiras, ficou em âmbito local, mas com problemas trazidos pela
globalização. No local, onde os mais apoderados financeiramente se cerca para
ficar “fora” da excludente, do feio e do desconfortável da cidade, opta por
ficar “dentro” dos oásis de calma e segurança. Quando surgem problemas sociais,
esses são particularizados e com soluções encontradas no mercado. A questão de
convívio e a problemática na cidade deixou, em muitos casos, de ser questão
social. Nesse cenário de “confinamento” o medo é muito controlado e explorado
ao mesmo tempo. Existe o medo de morrer com uma bala perdida, o medo de adoecer
e não ter um plano médico. O medo de ser roubado ou agredido. Para Bauman,
nesse cenário, a questão civitas
ficou desprotegido e no silêncio do mandado ético.
Quando
a cidade se mostra muito perigosa, a elite financeira (camada superior) se muda
para outro local. P. ex., no Brasil, com a atual crise política e económica,
aumentou 30% o número de brasileiros que compraram casa e foram morar em Miami,
EUA. Já os que não tem condições de comprar soluções ou se mudar, a tal camada
inferior, esses ficam jogos em segundo plano, obrigados a viver no espaço
local, muitas vezes excluídos, de todo um mundo social que ostenta o consumo.
CONCLUSÃO
Bauman
alertar sobre a necessidade de se desenvolver na humanidade o espirito de partilha para que
seja novamente possível unir projetos individuais e ações coletivas. Nos convida para
pensarmos soluções aos desafios dados nesse início no novo século. Mesmo
afirmando que ainda é cedo para tentar apropriar-se antecipadamente da
história para prever a forma que essa irá assumir e nos conduzir ao futuro. A
busca de soluções terá que acontecer, afirma.
Enfim,
é sempre difícil fazer crítica ao pensamento de um sábio. Dizem que um sábio
erra, mas mesmo errando, erra sabiamente. O que podemos falar para Bauman é que
para cada período de tempo à humanidade soube encontrar soluções a seus
problemas. Em alguns momentos, Bauman é em demasia cético em relação a
modernidade, no entanto, conscientemente diz que ainda não se sabe aonde os
atuais desafios irão nos levar, mesmo sendo sua crítica, parte da solução. Talvez
uma releitura e retomada de alguns ensinamentos clássicos do humanismo sejam sugestivos,
a própria ética kantiana é um exemplo, à geração atual e as futuras. De igual
forma, cabe a essas trabalhar e corrigir tais distorções, tanto no campo social
quanto particular. A ferramenta das redes sociais, que possui alcance global,
pode ser usada de forma mais ampla, para fins pedagógicos, na tentativa de despertar
uma cultura onde se possa usar com mais responsabilidade a liberdade. Afinal,
um martelo pode ser usado como arma, mas também em seu propósito de ferramenta,
na construção de casas.
Sobre o furacão Patrícia horas após chegar
à costa oeste do México, como o furacão mais forte já registrado pelas
estações meteorológicas, o mesmo perdeu força e na madrugada de sábado, ao
migrar mais para o interior do país, já era classificado como uma tempestade
tropical, de acordo com informações da rede de TV norte-americana CNN. O
furação trouxe prejuízos tanto humanos como materiais, mas em proporção bem
menor do que o anunciado.
Bauman, Z. (2006) Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Lisboa: Relógio d’Água.
Bibliografia complementar
Café Filosófico: O diagnóstico de Zygmunt Bauman para a Pós-Modernidade. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=6xt-k2kkvb4>. Acesso em: 13 out. 2015.
KANT, I. (1994) Fundamentação da metafísica dos costumes. Tradução: Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70.
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