29 outubro, 2007

Sobre ética


Neste, e ao longo do próximo mês, pretendo postar aqui assuntos relacionados à ética. A intenção é provocar no leitor a reflexão sobre o tema, da mesma forma que contribuir para o enriquecimento de insumos norteadores (sempre para melhor) de suas ações em sociedade. A final, ao dialogarmos sobre ética, não há como desvincular esta de nossos comportamentos, ou melhor, de nossas atitudes e ações com relação a nós mesmos e aos outros.
Como o tema será desenvolvido em três cursos (Publicidade, Secretariado e Contabilidade) penso que quando necessário for, postarei no blog (em separado) os assuntos, ou melhor, ora no espaço destinado a publicidade e ora destinado a assuntos específicos do secretariado e contabilidade.
É claro que a ética deve ser pratica sempre, independente da situação ou momento.
Portanto ao longo do curso pretendo trazer para a discussão em sala de aula ou neste espaço (para aqueles que se aventurarem) temas como:

Fundamentos da ética

Ética deontológica

Ética Utilitarista

Relativismo Moral

Códigos de Ética

Penso que tais assuntos, se bem trabalhados, possam nos trazer respostas para perguntas do tipo:
O que é ética? Existe ética ou existem éticas? É importante saber sobre ética? Qual a diferença entre ética e moral? Como podemos guiar nossas ações de forma correta? Existem leis universais para nossas ações? Os fins justificam os meios? E a questão da divindade?
Abraços, Jarbas Felicio.

22 outubro, 2007

Para entender a pós-modernidade



Por RAYMUNDO DE LIMA*
A idéia de "pós-modernismo" surgiu pela primeira vez no mundo hispânico, na década de 1930, uma geração antes de seu aparecimento na Inglaterra ou nos EUA. Perry Anderson, conhecido pelos seus estudos dos fenômenos culturais e políticos contemporâneos, em "As Origens da Pós-Modernidade" (1999), conta que foi um amigo de Unamuno e Ortega, Frederico de Onís, que imprimiu o termo pela primeira vez, embora descrevendo um refluxo conservador dentro do próprio modernismo. Mas coube ao filósofo francês Jean-François Lyotard, com a publicação "A Condição Pós-Moderna" (1979), a expansão do uso do conceito.
Em sua origem, pós-modernismo significava a perda da historicidade e o fim da "grande narrativa" - o que no campo estético significou o fim de uma tradição de mudança e ruptura, o apagamento da fronteira entre alta cultura e da cultura de massa e a prática da apropriação e da citação de obras do passado.
A densa obra de Frederic Jameson(1) "Pós-Modernismo" (1991), enumera como ícones desse movimento: na arte, Andy Warhol e a pop art, o fotorrealismo e o neo-expressionismo; na música, John Cage, mas também a síntese dos estilos clássico e "popular" que se vê em compositores como Philip Glass e Terry Riley e, também, o punk rock e a new wave"; no cinema, Godard; na literatura, William Burroughs, Thomas Pynchon e Ishmael Reed, de um lado, "e o nouveau roman francês e sua sucessão", do outro. Na arquitetura, entretanto, seus problemas teóricos são mais consistentemente articulados e as modificações da produção estética são mais visíveis.
Jameson aponta a imbricação entre as teorias do pós-modernismo e as "generalizações sociológicas" que anunciam um tipo novo de sociedade, mais conhecido pela alcunha "sociedade pós-industrial". Ele argumenta que "qualquer ponto de vista a respeito do pós-modernismo na cultura é ao mesmo tempo, necessariamente, uma posição política, implícita ou explícita, com respeito à natureza do capitalismo multinacional em nossos dias".
Vale observar que Perry Anderson, ao ser convidado a fazer a apresentação do livro de Jameson, terminou escrevendo o seu próprio “As origens da pós-modernidade”, constituindo assim uma espécie de ‘introdução’ ao conceito. Nele diz que o modernismo era tomado por imagens de máquinas [as indústrias] enquanto que o pós-modernismo é usualmente tomado por “máquinas de imagens” (p.105) da televisão, do computador, da Internet e do shopping centers. A modernidade era marcada pela excessiva confiança na razão, nas grandes narrativas utópicas de transformação social, e o desejo de aplicação mecânica de teorias abstratas à realidade. Jameson observa que “essas novas máquinas podem se distinguir dos velhos ícones futuristas de duas formas interligadas: todas são fontes de reprodução e não de ‘produção’ e já não são sólidos esculturais no espaço. O gabinete de um computador dificilmente incorpora ou manifesta suas energias específicas da mesma maneira que a forma de uma asa ou de uma chaminé” (citado por Anderson, p.105).
Para Gianni Vattino (2001)
“a chamada "pós-modernidade" aparece como uma espécie de Renascimento dos ideais banidos e cassados por nossa modernidade racionalizadora. Esta modernidade teria terminado a partir do momento em que não podemos mais falar da história como algo de unitário e quando morre o mito do Progresso. É a emergência desses ideais que seria responsável por toda uma onda de comportamentos e de atitudes irracionais e desencantados em relação à política e pelo crescimento do ceticismo face aos valores fundamentais da modernidade. Estaríamos dando Adeus à modernidade, à Razão (Feyerabend) Quem acredita ainda que "todo real é racional e que todo real é racional"(Hegel)? Que esperança podemos depositar no projeto da Razão emancipada, quando sabemos que se financeiro submetido ao jogo cego do mercado? Como pode o homem ser feliz no interior da lógica do sistema, onde só tem valor o que funciona segundo previsões, onde seus desejos, suas paixões, necessidades e aspirações passam a ser racionalmente administrados e manipulados pela lógica da eficácia econômica que o reduz ao papel de simples consumidor”.
O pensador brasileiro Sérgio Paulo Rouanet no seu estudo “As origens do Iluminismo” (1987) oportunamente observa que o prefixo pós tem muito mais o sentido de exorcizar o velho (a modernidade) do que de articular o novo (o pós-moderno). Ou seja, o que há é uma “consciência de ruptura”, que o autor não considera uma “ruptura real”. Rouanet escreve:
“depois da experiência de duas guerras mundiais, depois de Aushwitz, depois de Hiroshima, vivendo num mundo ameaçado pela aniquilação atômica, pela ressurreição dos velhos fanatismos políticos e religiosos e pela degradação dos ecossistemas, o homem contemporâneo está cansado da modernidade. Todos esses males são atribuídos ao mundo moderno. Essa atitude de rejeição se traduz na convicção de que estamos transitando para um novo paradigma. O desejo de ruptura leva à convicção de que essa ruptura já ocorreu, ou está em vias de ocorrer (...). O pós-moderno é muito mais a fadiga crepuscular de uma época que parece extinguir-se ingloriosamente que o hino de júbilo de amanhãs que despontam. À consciência pós-moderna não corresponde uma realidade pós-moderna. Nesse sentido, ela é um simples mal-estar da modernidade, um sonho da modernidade. É literalmente, falsa consciência, porque consciência de uma ruptura que não houve, ao mesmo tempo, é também consciência verdadeira, porque alude, de algum modo, às deformações da modernidade”.
(...)
Alguns sintomas no sujeito pós-moderno

Rouanet se arrisca em fazer uma psicopatologização ao considerar, primeiro, o moderno essencialmente como contraditório. É na modernidade que Freud e depois mais radicalmente W. Reich, ambos estabelecem a conexão repressão sexual e enfermidades mentais. Segundo, a sociedade pós-moderna irá favorecer o surgimento de um hedonismo socializado pela mídia e, de certa forma, respondida pela própria sociedade como sintoma “sociedade espetáculo” (Debord).
Na sociedade ocidental pós-moderna a visibilidade de cenas tende a ser obscena, quando exclui a dimensão da subjetividade e da privacidade das pessoas. Ou seja, anula-se a dimensão do privado, tornando “tudo” público, do cotidiano dos ansiosos por fama dos ex-anônimos do programa televisivo Big Brother, aos já famosos da revista Caras, e, também, o ritual histérico dos evangélicos, dos carismáticos e islâmicos, que se oferecem para serem vistos pela televisão seduzindo todos com suas “justas causas”, aos miseráveis igualmente noticiados e fotografados decorrentes de algum fato jornalístico.
Os sintomas de obscenidade da era moderna de exploração sexual ou de exploração do trabalho, operavam sempre no oculto, eram marginalizadas aos subterrâneos da vida social. Os dispositivos ideológicos de manutenção das cosias como estavam, eram a opressão social, a repressão psíquica e o trabalho ideológico de recondução da libido para fins de trabalho ou exploração industrial; hoje, na sociedade pós-moderna, reforçando o que foi dito acima, operam mecanismos de promoção da visibilidade do que era privado, como se decretasse o fim do segredo ou o fim da intimidade.
A doença da era moderna era a histeria, onde ocorria a teatralização do sujeito incapaz de suportar tanta repressão, originada no conflito endopsíquico. Freud funda a psicanálise graças às histéricas que lhe insinuam um gozo impossível. O mal-estar da cultura pós-moderna é mais complexo, os sintomas subjetivos se pulverizaram no disfarce coletivo, parecendo que “estamos todos bem”, tal como auto-enganava o personagem de Marcelo Mastroianni, no filme italiano de mesmo nome. O mal-estar pós-moderno é visível e trivial, expressado na linguagem do cotidiano do trabalho compulsivo, muitas vezes vendido como se fosse “lazer” ou “ócio criativo”, que gera stress, a perversão, a depressão, a obesidade, o tédio.
Em termos de patologia social, a modernidade fez surgir coisas contraditórias como indústrias e a atitude liberal, a ciência, a tecnologia, a multiplicação da população pobre e de guerras racionais. A pós-modernidade marca o declínio da Lei-do-Pai, cujo efeito mais imediato no social é a anomia, onde a perversão se vê livre para se manifestar em diversas formas, como na violência urbana, no terrorismo, nas guerras ideologicamente consideradas “justas”, “limpas” ou “cirúrgicas”. A razão cínica é cada vez mais instrumentalizada. Isto é, não basta ser transgressivo, ou perverso-imoral, é preciso se construir uma justificativa “moral” para atos imorais ou perversos. Zizek (2004) cita o escabroso caso dos necrófilos, nos EUA, que se julgam no “direito” de fazer sexo com cadáveres. Ou seja, qualquer cadáver é “um potencial parceiro sexual ideal de sujeitos ‘tolerantes’ que tentam evitar toda e qualquer forma de molestamento: por definição, não há como molestar um cadáver”.
Na pós-modernidade a perversão e o estresse são sintomas resultados da falta-de-lei, da falta-de-tempo, e da falta-de-perspectiva de futuro, porque tudo se desmoronou (do muro de Berlin a crença nos valores e na esperança). “Tudo se tornou demasiadamente próximo, promíscuo, sem limites, deixando-se penetrar por todos os poros e orifícios”, diz Zizek.
Nossa sociedade é regida mais do que pela ânsia de “espetáculo”; existe a ânsia de prazer a qualquer preço, não made in id [Isso] mas made in Superego. O superego pós-moderno “tudo vale” e “tudo deve porque pode”. Todos se sentem na obrigação de se divertir, de “curtir a vida adoidado” e de “trabalhar muito para ter dinheiro ou prestígio social”, não importando os limites de si próprio e dos outros. As pessoas se sentem no dever de se vender como se fosse um prazer, de fazer ceia de natal em casa à meia noite, de comemorar o gol que todo mundo está comemorando, de curtir o carnaval nos 3 ou 4 dias, de seguir uma religião, de usar celular sem motivo concreto, de gastar o dinheiro que não têm, de trepar toda noite porque todos dão a impressão de fazê-lo, de fazer cursos e mais cursos, ascender na empresa, escrever mil e um artigos por ano na universidade, enfim, todos parecem viver na “obrigação” de se cumprir uma ordem invisível, e de ser visivelmente feliz e vencedor. O senhor invisível que no manda é o superego pós-moderno; “ele manda você sentir prazer naquilo que você é obrigado a fazer”. E, ai daquele que não consegue, ou que se nega seguir a moral de rebanho, pagará de três modos: será estigmatizado pelos seus pares (“Ele quebrou o código, é um traidor do super-ego pós-moderno!”), ou pagará com um terrível sentimento de culpa ou, ainda, sofrerá os sintomas de uma doença psicossomática.
Não é sem motivo que os lugares de trabalho em que a competição é mais acirrada, onde não existem limites definidos entre trabalho, estudo e lazer, que encontramos pessoas queixosas, infelizes, freqüentemente visitando os médicos e hospitais. Se a modernidade prometia a felicidade através do progresso da ciência ou de uma revolução, a pós-modernidade promete um nada que pretende ser o solo para tudo.
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* Psicanalista, Professor do Departamento de Fundamentos da Educação (UEM) e doutorando na Faculdade de Educação (USP)
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Notas
(1) Perry Anderson considera Jameson um sujeito bem à esquerda de qualquer das fuguras incluídas nesse levantamento [p.77].
(2) Anderson, 1999: p. 77.
(3) Cf.: Japiassu, 2001.
(4) Japiassu (op. cit, p. 167 e 182-3) observa que a crença da marcha ascendente da humanidade em direção a um telos (fim), têm inspiração num desígnio traçado e querido por Deus para o bem da humanidade. A idéia de progresso (característica do Ocidente a partir do iluminismo e da Revolução Francesa) remonta às nossas fontes judaico-cristãs. A maioria de outras civilizações vive sem a idéia de progresso. Algumas chegam mesmo a recusar toda crença na historicidade. Para o hiduísmo, por exemplo, o homem não sai do eterno retorno. Para o budismo, o sujeito deve libertar-se dos acontecimentos, portanto da História. O mesmo se aplica ao sujeito da história, por exemplo, para o taoísmo “o único desejo autorizado é não ter desejos” (Cf.: Lao Tsé, em Tao te king) .
(5) Notem que essas ações antigamente – e ainda hoje - são criticadas pela esquerda marxista como “filantropista”, “reformista”, etc.
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Referências bibliográficas
ANDERSON, P. As Origens da Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
CARDOSO, C. F. Paradigmas rivais na história atual. In: Educação & Sociedade, n. 47, abril/ 1994, pp. 61-72.
GHIRALDELLI JR, P. A pedagogia marxista brasileira e o “esgotamento das energias utópicas da sociedade do trabalho”: um caso de não enfrentamento. In: Educação e razão histórica. São Paulo: 1994.
JAPIASSU, H. Desistir do pensar? Nem pensar! São Paulo: Letras & Letras, 2001.
ROUANET, S.P. As razões do iluminismo. São Paulo: C. Letras, 1987, pp. 229-77.
SAVIANI, D. O debate teórico e metodológico no campo da história e sua importância para a pesquisa educacional. In: História e história da educação. Campinas, 1997.
________. Educação e questões da atualidade. São Paulo: Cortez-Tatu, 1992.
VATTINO, V. O fim da modernidade. São Paulo: Martins Fontes, 2001?
ZIZEK, S. O superego pós-moderno. In: Folha S.Paulo – cad. Mais!, 23/05/2003.
________. A paixão na era da crença descafeinada. In: Folha S. Paulo-Mais!, 14/mar/2004, p. 13-15.
________. Eles não sabem o que fazem. O sublime objeto da ideologia. Rio: J. Zahar, 1992.

30 setembro, 2007

O conceito de meio ambiente

Por Melissa Bergmann
A questão ambiental se remete a uma questão de interesse humano e social, onde o ser humano é direta ou indiretamente afetado pelas alterações do meio ambiente. Esta é, portanto, uma questão que não se refere apenas à vida de seres animais, vegetais e microrganismos em seu ambiente natural (BRANCO, 2001). Fazendo uma abordagem sobre o conceito de meio ambiente, Branco (2001) discute os significados das palavras “meio” e “ambiente”. A palavra “meio” teria uma conotação mais de substância do que de entorno. Cunhada por Claude Bernard, a expressão “meio interno” foi utilizada para significar a substância em que estão banhadas as células em um organismo. Desta forma, o termo “meio” tradicionalmente tem uma conotação bioquímica e físico-química. A expressão “meio ambiente”, portanto, é mais restritiva do que “ambiente”, referindo-se ao “meio” "circundante”. O autor relata a ausência do termo “ambiente” ou correlato nos precursores da ciência ecológica. Lamarck, em sua teoria transformista, baseada na ação do meio sobre os indivíduos, utilizou o termo “circunstâncias” em referência aos fatores circundantes (ambientais) que influiriam na vida e na evolução dos seres vivos. Haeckel, o fundador da ciência ecológica, definiu a ecologia como a “ciência das relações do organismo com o ambiente”. Darwin, por sua vez, enfatiza as “condições de existência” como princípio da seleção natural. Os naturalistas contemporâneos de Humboldt (séc. XIX) consideravam o ambiente como “coincidente” com a distribuição das espécies, porém inativo sobre ela. O ambiente começa a passar de inativo a algo ativo, atuante sobre a distribuição e evolução das espécies, a partir da Revolução Francesa, onde se aboliu a idéia do determinismo social e político, influindo também nas idéias sobre o determinismo biológico e à inação do meio ambiente.
A partir da noção de Bernard sobre a homeostase, surgiu o entendimento da integração dos seres vivos com o ambiente que os cerca como um sistema, movimentado por fluxos de energia. Nesta perspectiva, os organismos não podem mais ser dissociados das “circunstâncias” que os cercam. Os organismos são parte integrante do ambiente, e o ambiente é constituído pelo próprio sistema. O ambiente “circundante”, portanto, deixa de existir. Porém, ao se inserir o homem social no (eco) sistema, Branco (2001) observa que o “ambiente exterior” volta a existir, pois ele não possui um nicho ecológico definido e seu habitat integra elementos que não pertencem à natureza. O meio ambiente torna-se objeto de ação antrópica, onde as ações de manutenção do equilíbrio homeostático passam a ser voluntárias e objeto da ética ambiental. O homem tem dependência mediata em relação ao meio ambiente, assim como a dependência das células de Bernard em relação ao meio interior.
Essa dualidade homem-natureza parece estar presente na perspectiva ecológica clássica, onde o ambiente é constituído pelos “arredores de um organismo, incluindo as plantas, os animais e os micróbios com os quais interagem” (RICKLEFS, 2001), não havendo relação ao ambiente modificado pelo ser humano. Entretanto, os ambientes que as atividades humanas dominam ou produzem, como os espaços urbanos e as áreas cultivadas, vêm sendo englobados como sistemas ecológicos (RICKLEFS op cit.).
Para Reigota (1994), meio ambiente é a noção de um lugar determinado ou percebido, onde os elementos naturais e sociais encontram-se em relações dinâmicas e em interação. Estas relações implicam processos de criação cultural e tecnológica e processos históricos e sociais de transformação do meio natural e construído.
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in: Bergmann, M. Análise da percepção ambiental da população ribeirinha do rio Santo Cristo e de estudantes e professores de duas escolas públicas, município de Giruá, RS. Dissertação (Mestrado em Ecologia), Instituto de Biociências, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2007.

Percepção

Por Melissa Bergmann

O significado originário do termo percepção expressa a apreensão de um determinado objeto real. Para Kant (2000), o conhecimento empírico (a posteriori) prevê o contato com um objeto real (sensação). Essa sensação é possível devido à receptividade do sujeito para captar as representações dos objetos. Após a sensação, o indivíduo passaria a pensar o objeto, isto é, passaria ao entendimento. Dessa forma, a percepção seria “a consciência empírica”, em que há simultaneamente sensação, estando também relacionada a ela o ato judicativo (juízo).
Outro conceito de percepção é a designação mais específica desse processo, que se constitui em uma operação determinada do homem em suas relações com o ambiente. É a interpretação dos estímulos e a construção de seus significados. Essa definição expressa a utilização do termo percepção pelas teorias psicológicas. A percepção, de acordo com essas correntes, é um processo baseado na totalidade, não existindo sensações elementares na composição de um objeto. Outro grupo de teorias dá maior importância aos fatores e às condições subjetivas. Entre seus proponentes, Dewey e Bentley propõem que “a natureza da percepção deriva da situação total em que está inserida e tem suas raízes tanto na experiência passada do indivíduo quanto de suas expectativas de futuro” (ABBAGNANO, 2000). Nesse caso, a percepção seria um processo ativo e seletivo.
De acordo com Bergson (1999), a percepção mede nossa ação virtual sobre as coisas, limitando-se aos objetos que influenciam nossos órgãos, onde os estímulos recebidos relacionam-se com a complexidade motora de nosso corpo, estabelecendo ações possíveis. A percepção está relacionada à ação, ao movimento, e o papel da memória é o de evocar as percepções passadas análogas à presente, buscando a decisão mais útil. Conforme Merleau-Ponty (1999), a consciência confronta as recordações com os dados presentes, retendo somente aqueles que se harmonizam com elas.
A composição do mundo “verdadeiro” é dada pela percepção, através das semelhanças e contigüidades. Segundo Bergson (1999), percebemos as semelhanças antes dos indivíduos que se assemelham, o todo antes das partes. Vamos do todo às partes, num trabalho de decomposição. Para Merleau-Ponty (1999), a percepção não é facultativa enquanto a vida está integrada à nossa existência concreta num determinado ambiente humano ou físico. Além da distância física que existe entre nós e todas as coisas, a distância vivida mede, a cada momento, a “amplidão” de nossa vida.
“É percebido tudo aquilo que faz parte de meu ambiente, e meu ambiente compreende tudo aquilo cuja existência ou inexistência, cuja natureza ou alteração contam para mim praticamente” (MERLEAU-PONTY, 1999). O autor afirma ainda que o percebido pode ser uma “unidade de valor” presente praticamente. Bergson (1999) também fala do útil, colocando-nos a oscilação de nossa vida psicológica entre as funções sensório-motoras e à vida imaginativa. A consciência atual aceita a cada instante o útil, e rejeita momentaneamente o supérfluo. Portanto, a consciência atual é a materialização das antigas percepções que se organizam na percepção atual, e que se direcionam à ação.
“Meu presente [percepção] é aquilo que me interessa, o que vive para mim, o que me impele à ação, enquanto meu passado [lembrança] é essencialmente impotente” (Bergson, 1999).

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in: Bergmann, M. Análise da percepção ambiental da população ribeirinha do rio Santo Cristo e de estudantes e professores de duas escolas públicas, município de Giruá, RS. Dissertação (Mestrado em Ecologia), Instituto de Biociências, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2007.

29 setembro, 2007

As ilusões e o nada



Por Tom Morris


Platão criou uma imagem memorável para as falsas crenças e ilusões de que não raro sofremos. Ele escreveu que somos todos como habitantes de uma caverna, acorrentados ao solo, olhar voltado para sombras que percorrem uma parede, sombras que tomamos por realidades.
O primeiro homem a escapar da caverna da ilusão em que, segundo Platão, vivemos é o filósofo, aquele dentre nós que consegue perceber que vivemos, de certa forma, vidas de ilusão, aprisionados por sombras e correntes que não foram criadas por nós. Ao voltar à caverna com seu estranho relato de outras realidades, ele será aclamado por alguns e vaiado por outros. Tendemos a nos acomodar às nossas ilusões. Assim, somos facilmente ameaçados por quaisquer relatos estranhos de realidades maiores. Mas o verdadeiro filósofo tenta libertar o máximo de companheiros cativos, para que vivam nas realidades mais amplas e brilhantes que residem além dos estreitos limites de suas percepções costumeiras.
Esta é uma imagem viva da derradeira tarefa da filosofia. Sua meta é libertar-nos da ilusão e ajudar-nos a captar as realidades mais fundamentais.
Sob que ilusões você está vivendo agora? Que coisas você valoriza sem realmente terem a importância que você lhes atribui? Que coisas realmente valiosas você pode estar ignorando? Que suposições você faz sobre sua vida que podem se basear em aparências, em vez de realidades? A maioria das pessoas está acorrentada por todo tipo de ilusão. A filosofia, quando bem praticada, pretende nos ajudar a romper esses grilhões.
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Um de meus mestres favoritos em Yale foi Paul Holmer, professor de teologia filosófica na Divinity School. Lembro-me de uma aula — acho que foi sobre o pensamento de Sören Kierkegaard — em que ele contou uma história bem pessoal sobre sua casa de campo em um lago de Minnesota. A casa ficava em uma ilha, no fim do mundo. Ele contou que, em noites de céu claro, adorava sair bem tarde, entrar em um pequeno barco e remar certa distância no lago. Depois ele parava, deitava-se no casco e ficava contemplando o céu. Milhares de estrelas cintilavam e tremulavam para ele contra a tela de fundo negra. Ele absorvia tudo aquilo e se sentia subjugado pela incrível maravilha daquilo tudo. O mundo, este universo, essa localização improvável de uma consciência tão pequena e intensamente curiosa, em meio a tudo isso, para refletir filosoficamente sobre o porquê e o como.
Ele contou que ficava sempre impressionado com a mera improbabilidade de toda essa existência, essa vasta extensão de ser. Ele se sentia dominado pela questão cosmológica: por que existe algo em vez de nada?
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Tom Morris Texto retirado de Filosofia para Dummies, de Tom Morris (tradução de Ivo Korytowski, Rio de Janeiro: Editora Campus, 2000)

Fonte: criticanarede.com

13 junho, 2007

Semana do Irmão Pedro


Ocorre na Escola Técnica Irmão Pedro, Bairro Floresta, Porto Alegre, entre os dias 18 e 23 deste mês a Semana do Irmão Pedro. O evento é alusivo às comemorações do aniversário da Escola que, neste ano, está comemorando seus 45 anos de atividade. Entre seus serviços prestados à comunidade a escola possui três cursos Técnicos: Curso Técnico em Publicidade, Curso Técnico em Secretariado e Curso Técnico em Contabilidade. A Escola possui também o Curso de Ensino Médio.
O evento que ocorre durante toda a semana terá várias atividades que serão desenvolvidas entre professores e alunos:

► Gincana
► Palestras
► Oficinas ( Arte e graffiti, literatura, Hip Hop, cinema)
► Competição Esportiva
► Festa Junina

Quem tiver interesse ou quiser saber mais sobre a Semana do Irmão Pedro pode ligar para a Escola, o fone é 3395-1001.

04 junho, 2007

PROUNI



Inscrições para o PROUNI encerram dia 7 Junho. Veja como e quem pode se inscrever no link abaixo.

07 maio, 2007

Será que o corpo fala?




O corpo fala e realiza negócios

Melhore seu atendimento, compreenda os sinais do corpo
Saber se comunicar é de grande importância e um fator de sucesso no mundo dos negócios. O uso de gestos e o tipo de comportamento é algo muito interessante a observar no cotidiano.
Deve-se compreender que a comunicação vai além de aspectos verbais, dado que os aspectos não-verbais apresentam coisas que sequer imaginamos.
Para descobrir os sinais que estão além das palavras, basta um pouco de observação no comportamento das pessoas e de seus impulsos naturais diante de determinadas situações.
Neste contexto, ganha particular sentido a linguagem corporal, dado que ela pode dizer muita coisa sobre a pessoa com quem você está conversando.
Visualize a cena: mãos estendidas, com as palmas para cima.
Você acha que elas podem significar um pedido de "me dá isto, venha comigo" ou coisa do gênero?
É lógico que sim!
Numa conversa, por exemplo, as pessoas podem falar uma coisa e pensar em outra; podem contar algo e você não consegue definir se realmente isto é mentira ou verdade. Saiba que o corpo não mente!
As pessoas sim, mas o corpo não.
Imagine uma pessoa com o rosto abaixado: a imagem é de submissão, ao contrário daquela pessoa que apresenta o rosto levantado, transmitindo domínio.
A base teórica da divisão do corpo humano nas três partes citadas é objeto do livro "O corpo fala: a linguagem silenciosa da comunicação não- verbal", de Pierre Weil e Roland Tmpakow (Editora Vozes, 1986, 292p.). Também os exemplos apresentados a seguir são originários deste livro, com pequenas adaptações.
O gesto de cruzar os braços pode ser uma barreira corporal que as pessoas constróem diante de quem estão conversando, podendo significar um tipo de proteção. Além disto, significa também que quem está cruzando os braços, dependendo da situação, não deseja mudar de opinião e não quer aceitar o que estão lhe falando. Em momentos de tensão, a mão direita expressa os sinais da razão, enquanto a esquerda os sinais de emoção.
Diante de questões difíceis e que sugerem insegurança, por exemplo, uma pessoa pode simular uma tosse e colocar a mão na boca, puxar com insistência o colarinho da camisa e até gesticular as mãos, de forma desordenada.
Juntar as pontas dos dedos enquanto alguém está falando significa concentração no discurso. Ainda com relação às mãos, um cumprimento feito com ela, de maneira frouxa, significa pouco envolvimento na relação.
Levantar as sobrancelhas pode traduzir surpresa, espanto e alegria, ao passo que sobrancelhas abaixadas representam concentração, reflexão e seriedade.
Bater os pés no chão com freqüência pode ser um sinal de irritação, insegurança ou ansiedade. Lábios presos entre os dentes traduzem uma manifestação de não querer se comunicar ou não participar de discussões.
Numa conversa, sentado à mesa com alguém, se você deixar sua pasta ou bolsa de trabalho no colo transmitirá a sensação de que está inseguro. Mexer no queixo é um sinal de pensamento sobre algo que foi proposto.
Quando uma pessoa está sentada e inclinada para trás, a imagem que ela transmite é de estar relaxando ou descansando. Quando a pessoa está sentada e mantém o pé ancorado, pode-se entender que ela teima em manter o seu ponto-de-vista e não está disposta a mudar de opinião. A forma como alguém senta pode representar interesse ou desinteresse.
Estes foram apenas alguns sinais sobre como o corpo humano fala. No mundo dos negócios, saber decifrar tais sinais pode ajudar a fechar um negócio, por exemplo. Afinal, como Wiel e Tompakow defendem em seu livro, "pela linguagem do corpo, você diz muitas coisas aos outros. E eles têm muitas coisas a dizer para você". Pense nisto!
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Gestos
Ouço e aprovo -
A cabeça pende e o olhar é amistoso, mostrando atenção e aprovação (mão no queixo é sinal de aprovação)
Estou atento - Os olhos atentos e o corpo inclinado para a frente indicam atenção e interesse (sombrancelhas levantadas demonstram interesse)
Este é o meu ponto de vista - Gestos enfáticos com as mãos são uma forma de reforçar a mensagem verbal (mãos gesticulam para dar ênfase)
Não estou bem certo disso - Morder a caneta indica a necessidade de cuidado e atenção. Demonstra, ainda, medo e insegurança (o olhar de viés aumenta a incerteza)
Preciso de conforto - Uma mão afaga o pescoço e a outra abraça a cintura, indicando a necessidade de reafirmação (os braços apegam-se ao corpo, como forma de autoconsolo)
Dúvidas e mais dúvidas - Massagear a região entre os olhos (fechados) revela conflito interno em relação ao que está sendo dito (olhos fechados e sobrancelhas franzidas expressam dúvida)
Leia o Clássico: O Corpo Fala de Weil, Pierre; Tompakow, Roland da editora Vozes.

29 março, 2007

A Sua Opinião!!!

Olá,
Fico feliz ao perceber que os alunos vêm até o Blog Mora na Psicologia. Peço a estes que até aqui chegaram... que entrem também no Blog Extemporâneo. Gostaria que opinassem sobre a última postagem que lá está. É sobre nossa escola Irmão Pedro.
Das imagens que estão lá, qual vc gosta mais??? Opine!!!!
Abração Jarbas.

26 março, 2007

A experiência de Pavlov: condicionamento do cachorro


Tente condicionar o cachorrinho de Pavlov. Será que vc consegue? Tente aqui!!!

Subjetividade, Imaginários e Utopias



Por Euclides André Mance (1)Curitiba, maio de 1994

1. Subjetividade: Individualidade e Singularidade
Normalmente, entende-se por sujeito o indivíduo que é capaz de agir por si mesmo, isto é, capaz de pensar, decidir e atuar conforme a sua própria decisão. Sendo assim, a subjetividade engloba todas as peculiaridades imanentes à condição de ser sujeito envolvendo as capacidades sensoriais, afetivas, imaginativas e racionais de tal pessoa.
Na verdade toda pessoa é uma complexa unidade natural e cultural. Mais que um corpo com funções biológicas e psicológicas com capacidades de transformar o seu meio pelo trabalho e pela linguagem, o ser humano é uma unidade de necessidades, desejos, sentimentos, angústias, temores, imaginários, racionalidades e paixões. Da mesma forma como não podemos considerar o homem apenas como um animal racional, também não podemos reduzir a subjetividade a uma dimensão meramente cognitiva, a uma consciência, desconsiderando todas as demais facetas da complexa interioridade de cada um.
Essa subjetividade é uma espécie de argila que vai sendo modelada sob a cultura dominante em cada sociedade. Quando nascemos não somos sujeitos de nossa vida, mas sim "objeto de cuidados" de nossos pais e somente aos poucos vamos aprendendo a viver com mais independência e autonomia, sempre relativas. Nesse processo de construção de nossa personalidade aprendemos uma língua, hábitos e costumes, incorporamos padrões de comportamento e valores, de apreciação estética do que é belo e feio, enfim, nos formamos (e somos formados) segundo as referências ou códigos, de uma certa cultura -- é muito diferente nascermos no Brasil, em Ruanda, no Japão ou na Suíça. Tais elementos que incorporamos ou que nos formam advém das várias experiências de sociabilidade pelas quais passamos: nossa família, a escola, nossos colegas e amigos, a comunidade local, a igreja e, especialmente de maneira cada vez mais significativa, os meios de comunicação social. A mídia nos apresenta padrões estéticos, éticos e políticos. Ela nos traz informações selecionadas de todo o mundo a qualquer instante. Funcionando sob a lógica do acúmulo de capital, como empresa que deve ser rentável, através dos diversos canais de rádio, televisão e outros meios de publicidade utilizam-se recursos psicológicos, pedagógicos e estéticos sob estratégias de marketing, a fim de atingir a subjetividade do espectador, criar-lhe desejos, anseios, angustias e movê-lo a todo custo a consumir os produtos que as empresas anunciam em uma guerra de concorrências, a fazê-lo optar politicamente por aqueles que manterão intocados os interesses das próprias elites que detém os controles dos próprios meios de comunicação de massa.
Com a mundialização dos mercados e com as novas tecnologias -- especialmente na área de informática e todas as interfaces com mecanismos de comunicação de massas (como a computação gráfica, por exemplo, capaz de criar fantásticas realidades imaginárias) -- o mundo assiste a reordenação do capitalismo em escala planetária, configurando-se não apenas como um modo de produção econômico que vai rompendo cada vez mais -- sob sua lógica do acúmulo privado -- as estruturas políticas que limitam-lhe os movimentos de expansão e concentração, mas especialmente como um modo de produção de subjetividades em escala mundial. Não apenas é preciso modelar as subjetividades de uma parcela da população mundial para que possam produzir sob novos e complexos processos produtivos, mas também é necessário modelar as subjetividades dos que possuem recursos para consumir aquilo que é produzido. Assim, um mesmo produto de uma mesma marca é vendido na maior parte do mundo e em cada país manipulam-se subjetividades para que este produto seja desejado e consumido.
Com o advento dos aglomerados humanos em metrópoles e megalópoles, com o adensamento urbano gerando um verdadeiro formigueiro de milhões de pessoas estranhas que se cruzam pelas ruas com faces desconhecidas, absortas em seus próprios problemas e horários, cumprindo seus ciclos de trabalho, estudo, lazer ou a margem de tais processos na angústia de encontrar um rumo para a vida , emerge um fenômeno determinante na vida da maioria: a cultura de massas. As antigas balizas de formação da subjetividade como a família ou a vizinhança, a igreja ou a escola, vão perdendo cada vez mais espaço para os meios de comunicação de massa: os desenhos, filmes, novelas, peças publicitárias, "games" e outros produtos semióticos. As festas que marcavam os ciclos da vida comunitária são cada vez menos freqüentes e mais impessoais, motivadas geralmente mais pelo lucro para realizar alguma obra do que pela vivência de um momento estético e criativo singular, afetivo e autêntico; as famílias não mais se visitam, como outrora; quando pais e filhos se reúnem em casa, algumas poucas horas por dia no início da noite, normalmente dialogam pouco, e o fazem assistindo televisão. A comoção das crianças por Xuxa ou da população em geral pela morte de Airton Senna, evidencia de maneira gritante como as subjetividades são afetadas pela comunicação de massas.
Em geral, é sob a lógica dominante do capital através das suas diversas semióticas -- isto é, das diversas linguagens particulares que compõem signos dominantes e que sobrecodificam os códigos de compreensão de mundo e de comportamento nos diversos âmbitos da vida de cada um -- difundidas através da mídia, que as subjetividades passam por um processo de individualização. Traduzindo isso em termos mais simples e menos precisos, por exemplo, sob a lógica do acúmulo ou desfrute do capital é preferível ter amigos, namorar ou casar com quem é rico. Assim, os códigos ou parâmetros a partir dos quais se define quem deve ser meu amigo ou meu esposo ficam sobrecodificados pelos códigos do capital. Sob tais códigos deve-se valorizar quem possui a roupa da moda, objetos que confiram prestígio ou comportamentos similares aos dos arquétipos apresentados pela mídia em suas peças publicitárias, filmes, novelas, etc. Mas tal processo é muito mais profundo que aparentemente parece ser. Quando depois de muitas lutas de um movimento de moradia, por exemplo, uma comunidade de favelados conquista a terra e as pessoas dividem os lotes fazendo cercas e muros, deixando de participar da Associação de Moradores -- preocupando-se agora exclusivamente com sua vida privada -- percebe-se que de fato aquele terreno é compreendido apenas sob a lógica da propriedade privada e não como um signo de solidariedade, de valorização da ação coletiva.
Assim, sob a cultura de massas ocorre um processo de individualização em que a subjetividade é modelada sob forte pressão da lógica do capital através de diversas linguagens especialmente difundidas através da mídia. Cada pessoa é instigada a sair da indiferença da multidão, a distinguir-se dos demais, a individuar-se, a não ser apenas mais um na massa amorfa, mas ser alguém especial, cultivar a sua individualidade, destacar-se dos demais. Tal diferenciamento, entretanto, deve se realizar conforme as referências estabelecidas pelas linguagens dominantes, pelos balizamentos propostos pelo sistema vigente através de seus inúmeros equipamentos e meios de modelizar a subjetividade. Assim, por exemplo, a busca da fama, do poder, do sucesso, materializada na riqueza e no status acaba sendo tomada como sentido da individualização das pessoas. A massificação e individualização sob os códigos do capital são os dois elementos contraditórios de um mesmo processo histórico-existencial dos que vivem sob as complexas relações atuais, especialmente nos aglomerados urbanos.
Em contraposição a esse processo de individualização, podemos considerar os processos de subjetivação ou singularização. Trata-se aqui de processos interpessoais em que as pessoas, contrariando lógicas do capital e subvertendo suas semióticas, dão vazão criativa à sua subjetividade. Processos deste tipo ocorrem em inúmeros relacionamentos afetivos, comunitários, em determinados tipos de movimentos sociais, que desenvolvem experiências estéticas e éticas singularizantes que resgatam a centralidade da realização humana na convivência fraterna entre as pessoas, no face-a-face, na solidariedade, no carinho, na ternura e na justiça. Desenvolvendo processos de interação comunicativa sob diversas linguagens -- cantos, danças, ritos, dramatizações, bate-papos, etc... -- despertam uma subjetividade adormecida ou reprimida que aflora como consciência da sua própria dignidade e que descobre como sentido da vida o desejo da relação autêntica com os demais. O processo de subjetivação necessita também de linguagens mediadoras que vão do diálogo a inumeráveis linguagens, sejam das liturgias, dos partidos, as palavras de ordem do movimento social, os gestos de acolhida e saudação, a afirmação de outros padrões éticos e projetos políticos. A subjetivação é uma espécie de revolução do cotidiano que subverte lógicas de discriminação, dominação e opressão, resgata a valorização da palavra de todos, inclusive da criança e do ancião, na formação das decisões coletivas. Assim, sob as dinâmicas desse desejo alterativo, do desejo de que cada humano possa ser realmente outro em sua criatividade e acolhido com atenção e carinho em uma convivência fraterna, é que se sobrecodificam as demais linguagens e práticas que promovem um processo de subjetivação, singularização ou revolução molecular como é definido por alguns autores.

2. Imaginários, utopias e realidades virtuais
A informação e os sistemas de signos organizados para transmitir a cultura entre os homens, de uma geração a outra, sempre desempenharam um papel fundamental na totalidade da vida de todos os povos, desde os mais primitivos até a civilização contemporânea. A relação entre saber e poder, informação e economia é tão inseparável quanto a vida humana dos códigos lingüísticos e todos os outros códigos a partir deles construídos: éticos, religiosos, políticos, econômicos, estéticos, etc. Contudo, o papel da informação, da comunicação e criação de signos na vida das sociedades nunca foi tão explorado e desenvolvido como nos dias atuais, especialmente em razão do desenvolvimento de equipamentos que possibilitaram interações instantâneas sob os mais variados códigos comunicacionais. A relação do homem com os signos é um vastíssimo campo que continua sendo explorado contemporaneamente por um conjunto de reflexões interdisciplinares.
A interação da subjetividade com os signos -- sejam letras escritas, logomarcas de produtos ou partidos , símbolos religiosos, peças publicitárias, enfim, elementos semióticos sob qualquer linguagem -- é simultaneamente estética e cognitiva. É uma interação estética em dois sentidos: porque envolve uma percepção sensível dos signos e porque suscita disposições afetivas, conscientes ou não, no receptor. É uma interação cognitiva pois resulta em um conceito ou noção que engloba um significado produzido pela comunicação envolvendo também, em graus variados, os aspectos perceptuais e afetivos envolvidos no processo. Assim, a interação com o signo da Coca-Cola, com sua logomarca, é tanto cognitiva como estética. Os afetos envolvidos são modelizados pela mídia sob a linguagem das campanhas de publicidade, esteticamente bem elaboradas, que atuando sobre a subjetividade do espectador mobilizam o desejo de consumir o produto. Este processo de produção de significados que se associam à maioria dos elementos presentes no cotidiano das pessoas, ocorre não apenas com os produtos que são apresentados para o consumo, mas em relação, por exemplo, às obras de administrações que são apresentadas como signos de competência dos governantes -- agenciando a satisfação por ter escolhido o governante certo, ou o desejo de nele votar na próxima eleição--, ou ainda em relação às greves dos trabalhadores que são apresentadas como signos de baderna e vadiagem, de quem quer trabalhar pouco e ganhar muito, etc.
Na individualização capitalista ocorre a modelização da subjetividade em seus aspectos estéticos e cognitivos em meio a um processo de alienação generalizada. A sensibilidade é mutilada seja porque os pobres e miseráveis trabalham em situações desumanas e não tem condições de moradia e alimentação saudáveis, afetando-se seus sentidos, impossibilitando o desenvolvimento de suas capacidades estéticas e afetivas, seja, por outro lado, pela exposição da subjetividade a produtos semióticos como filmes, novelas e noticiários que geram indiferença aos sofrimentos dos demais ou o refinamento das necessidades e desejos das classes médias e elites sob a lógica do consumismo em que o autêntico sentido da vida humana é desviado para a posse e a fruição de objetos e acontecimentos, enfim para a realização do ideal apresentado de individualização humana sob os marcos capitalistas.
Quando um conjunto de signos constituídos a partir de diversas interações familiares, religiosas, escolares, de trabalho, de consumo, da mídia, etc, se articulam -- de maneira coerente ou não -- referindo-se a realidades efetivas ou imaginárias como se elas fossem a realização de tais signos, então estamos diante do fenômeno da realidade virtual. Tudo se passa como se objetos, circunstâncias e comportamentos ganhassem uma outra dimensão de realidade, vivendo as pessoas em uma ilusão como se ela fosse a realidade efetiva. A realidade virtual é construída pela conferência de sentidos e significações que se articulam em um imaginário, produzindo a ilusão de se estar presente em uma realidade que efetivamente não existe, comportando-se o sujeito perante tais realidades como se elas existissem. O imaginário é percebido como real. Assim, a convulsão nervosa de um jovem sob os gritos do pastor é vivenciada pelos demais como a presença do demônio; a morte de um piloto de fórmula um é vivenciada por multidões como uma tragédia nacional; o inseticida fabricado à base de piretrina, por que é extraído de flores como diz a propaganda, é tido por inofensivo à saúde; a propaganda de Curitiba faz crer que ela é a "Capital Ecológica" quando cerca de 10% de seus habitantes vive em condições de subabitação, a maioria morando em mais de 200 favelas situadas, grande parte, à beira de esgotos que correm a céu aberto, onde crianças catam latas para trocar em "programas ecológicos" de troca de lixo por alimento. Quando se compra a margarina Doriana porque inconscientemente se deseja a família feliz semioticamente a ela associada pela propaganda, compra-se primeiramente um signo mágico que tem na margarina apenas seu suporte objetivo. Como alguns jovens de favela que economizam o dinheiro de seu trabalho para comprar a calça e o tênis da moda que exibirão na danceteria no sábado à noite, como que vivendo um momento de magia, em que parecem realizar uma condição de ser aquilo que não são, porque possuem alguns signos que sob a gramática da propaganda somente são usados por pessoas especiais, com destaque social.
Assim os imaginários são construídos pela composição de inúmeros signos vinculando afetos e sentidos. Todas as pessoas possuem seus imaginários, cujos signos se articulam das maneiras mais diversas. Em meio a esse conjunto de cognições, sentidos e afetos, pela interação com a realidade efetiva ou pela interação com a realidade virtual, as pessoas vão construindo sua personalidade, sendo determinadas por aspectos econômicos, políticos, religiosos, etc. Podemos dizer que cada ser humano articula seus desejos, sonhos, esperanças e projetos sob uma utopia. A utopia de cada um é justamente aquilo que cada qual quer realizar em sua vida particular, um norte da existência pessoal. A utopia pessoal está sempre marcada pelo processo de individualização ou subjetivação e compõem elementos do imaginário pessoal, sob cujos signos encontram-se disposições afetivas modelizadas ou não sob os códigos do capital que sobrecodificam diversas linguagens em uma sociedade capitalista. Toda utopia emerge como uma certa negação da realidade presente efetiva, e se volta para a sua transformação, a fim de realizar os desejos utópicos.
Ora, sendo a dimensão utópica uma característica própria a todas as subjetividades humanas, o sistema capitalista se especializa em manipulá-la a fim de realizar seus objetivos intervindo ao âmbito mais íntimo da vida privada. O capitalismo que é responsável pela realidade de pobreza e angústia em que vive a maioria da população, é também o grande provedor de ilusões e fantasias, promovendo a construção de utopias alienadas e alienantes pelos indivíduos sempre insatisfeitos. Apresentando ideologicamente um projeto de sociedade em que todos podem ascender segundo seus méritos, qualidades e empenhos, o capitalismo propõe -- em geral -- que as pessoas não aceitem viver na pobreza, mas que, pelo contrário tenham como utopia particular subir na vida. Poder , luxo, fama e riquezas são elementos que, fazem parte, em alguma medida, das utopias veladas da massa alienada, cujos arquétipos se identificam com personagens fictícios e vitoriosos apresentados pela mídia como modelos de realização pessoal. Tais utopias compõem anseios, desejos e aspirações que mobilizam a práxis pessoal a fim de realizar os objetivos últimos formulados utopicamente. Como não se pode impedir que os indivíduos construam utopias e reprimi-las não significa destrui-las, as semióticas do capital modelizam as subjetividades de maneira que seus desejos, aspirações, anseios, sejam orientados a práticas que não só favoreçam o acúmulo de capital das elites e a sua manutenção nos postos do poder político, como permaneçam dentro códigos e limites que o próprio sistema impõe. Assim, para subir de nível ou na luta por realizar alguns pequenos desejos deve-se respeitar os limites válidos para todos, isto é, os mecanismos de acesso à propriedade privada, o respeito à lei em geral, etc. Desta forma, as utopias tanto podem ser potencialmente revolucionárias, singularizantes, elementos de subjetivação, como também podem ser conservadoras, gestadas em processos de individualização, embora sempre emerjam da negação da realidade imediata e cotidiana das pessoas que as elaboram e componham elementos que possuem significações peculiares pela articulação que mantém em seus imaginários.

3. Dominação Cultural: Subjetividade e Realidade Virtual
Como vimos a subjetividade de cada pessoa que cresce sob uma cultura capitalista em maior ou menor medida é modelizada sob os seus códigos de valor de uso e troca, em função dos giros do capital graças à sua conversibilidade em equivalentes econômicos e semióticos. Tal conversibilidade ocorre, por exemplo, quando o capital é gasto em uma peça publicitária, que por sua vez gera um desejo de consumo que move o público a comprar o produto e consumi-lo, possibilitando assim mais lucro ao empresário. A conversibilidade em diversos equivalentes semióticos ocorre, também, quando se converte o capital em títulos e papéis e em outros signos sob contratos em linguagens jurídicas que convencionam a correção dos valores de tais papéis sob signos de taxas emitidas por aqueles que terão reconhecidamente o direito de determiná-las, possibilitando que o valor de troca real de tais papéis aumente em relação aos produtos efetivos.
Os signos também possuem valor de uso e troca, como outras mercadorias. Assim, por exemplo, usar um calçado é uma necessidade do atual modo de vida de nossas sociedades. Contudo os fabricantes de tênis, por exemplo, produzirão peças publicitárias para mover as subjetividades a comparem seu produto. Não basta, entretanto, agenciar nos jovens o desejo de adquirir um tênis, pois se assim fosse a compra de qualquer tênis realizaria tal desejo. É preciso criar um signo que distinga o tênis de determinada empresa dos produtos similares do demais concorrentes. A interação que o jovem terá com aquele signo é simultaneamente estética e cognitiva, isto é, há uma interação perceptiva e afetiva com o signo resultando em alguma noção ou conceito que se articula com os demais signos de seu imaginário. A propaganda cuidará então da riqueza perceptiva de tal signo sob uma peça publicitária, para que ele não se confunda com nenhum outro signo de nenhum outro produto, ou pelo contrário, para que tal confusão realmente ocorra para levar o consumidor, por exemplo, a comprar amido de milho da Arisco ou invés de Maisena. Contudo a atenção especial é dada à dimensão afetiva em relação ao signo. Todo signo aponta para alguma coisa que não é ele próprio, mas o que ele significa. Ora a marca do tênis -- como todos os signos -- possui uma função polissêmica, isto é, pode significar mais de um significado. Assim, o signo do tênis apontará não apenas para um calçado mas para um conjunto de qualidades e fascinações que ele enquanto signo sobrecodificará. Na peça publicitária aparecerão jovens alegres, bonitos, sensuais, que causam impressão nos colegas e que são socialmente reconhecidos, merecedores de um destaque especial, por possuírem aquele produto. Na propaganda, quando caminham ou correm eles não passam desapercebidos em meio à massa, como se fossem qualquer um, mas entram evidência. São diferentes. Para o espectador aquele tênis é mais que um calçado é um signo que possui uma identidade própria e que em seu imaginário aparece como uma mediação para alcançar destaque, reconhecimento dos amigos, envolvimentos sensuais. Muitas vezes isto aparece manifestamente na própria peça publicitária: "Se alguém lhe oferecer flores no elevador, isto é Impulse! "; "Use avanço que elas avançam !"; "Com Doriana, os elogios são para você !"... O componente afetivo é cada vez mais determinante na escolha do produto, especialmente quando os similares tem as mesmas qualidades objetivas e preços semelhantes. É por isso que, por exemplo, as mesmas empresas de sabonetes e dentifrícios, colocam no mercado várias marcadas de sabonetes e cremes dentais para os diversos segmentos do público consumidor que variam em poder aquisitivo e em imaginários. A modelização da subjetividade para que encontre naquele signo uma satisfação virtual de seus desejos é elemento imprescindível para o acúmulo de capital pelas empresas, que concorrem no mercado. Quando o signo já passou a fazer parte do imaginário como mediação para a realização de afetos, a publicidade em muitos casos deixa de lado o próprio produto para fazer propaganda apenas do próprio signo: como algumas peças publicitárias do "M 2.000", dos cigarros "Hollywood", etc. Assim, o signo tem uma função de uso: não é qualquer tênis que pode garantir o reconhecimento social e a satisfação psicológica de possui-lo. Mesmo que outro produto tenha todas as qualidades objetivas similares, ele é suporte de um outro signo, possui uma outra marca, não cumpre a mesma função no imaginário. Quem compra o tênis em função do signo, a rigor não compra o tênis, mas o signo. Ao consumir o signo visando satisfazer seus anseios subjetivos, considerando no objeto as propriedades virtuais a ele associadas o indivíduo realiza o consumo virtual. Em sua roda de amigos, em cujo imaginário a posse daquele signo deve conferir um caráter de destaque social ao seu possuidor, aquele jovem viverá a fantasia de ser mais especial que os outros e receberá objetivamente o reconhecimento pelos demais.
Muitas vezes é difícil, até mesmo aos mais atentos, escapar da confusão entre realidade efetiva e virtual.
(...)
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Notas:
1 Texto apresentado em seminário preparativo à Semana Social da CNBB, realizado em Curitiba em maio de 1994.
In:
http://www.milenio.com.br/mance/Imaginarios.htm, em 18/03/2007.
Postei somente parte do artigo. O artigo completo está no site acima.

22 março, 2007

Um clássico comercial brasileiro


Prenda a atenção do seu público

Liderança.

Se você não gosta de receber sermões, os outros também não. Faça melhor, envolva seus ouvintes em um bom diálogo.
ROLY GRIMSHAW*


Recentemente, o parceiro de uma companhia de acionistas estava lamentando o irritante número de candidatos que fizeram discursos para um contrato de auditoria com a sua empresa. Durante a primeira apresentação, um dos auditores discursou em tom monótono, dando informações já sabidas ou, pior, irrelevantes. Na segunda exibição, a equipe mostrou slides e vídeos divertidos, mas tudo pareceu artificial e falso - qualidades que não eram desejadas para um cargo de auditor.


Encerrado o processo, o que havia com as apresentações dos auditores que, ao final, ele contratou? O diagnóstico foi que o discurso dessas pessoas parecia ter sido feito de forma honesta, por profissionais competentes e que só foram lá para conversar. O grupo não fez exatamente uma exibição, mas colocou as questões que envolviam os negócios da empresa em um tom de conversa informal. Além disso, os integrantes mostraram como poderiam oferecer ajuda para solucionar problemas. Ficou a impressão de que o grupo de auditores já trabalhava para ele. E foi esse o resultado, de fato.

Ao analisar o trabalho do grupo Kingstree, o time vencedor, descobre-se que diálogo é a chave para envolver ouvintes, dar credibilidade e também inspirar confiança durante uma palestra, independentemente se a apresentação é para um pequeno ou grande grupo. Esse tipo de abordagem constrói um estilo único para o apresentador, tão personalizado como uma impressão digital. Além disso, remete a certas características de conversação que são comuns para todas as pessoas, proporcionando uma estrutura que pode ainda aumentar o impacto do discurso.

Abordagem com risco

Infelizmente, os antigos conselhos que são dados durante a preparação de discursantes ou oradores falham quase sempre em uma área crítica. O orador freqüentemente usa um modelo de abordagem em que tenta imitar renomados comunicadores.

Pensam assim: Ronald Reagan e Winston Churchill eram grandes oradores, então para eu ser um grande comunicador, tenho de ser como eles. O que só os levam à artificialidade.

Uma outra técnica que geralmente se utiliza é a identificação das características de um bom apresentador, ou seja, o ensinamento do que ele deve ou não fazer. Para isso, inicialmente, a pessoa é filmada durante a sua performance. Depois, é orientada em alguns quesitos como postura, relaxamento, entonação de voz e contato visual com o público.

Quando a pessoa é filmada novamente, os resultados são melhores: o desempenho fica mais disciplinado, e o orador fala com mais animação e variedade.

Porém, esse tipo de abordagem também pode conduzir à falta de naturalidade. Imagine esse cenário. O orador chega na sala de conferência, encontra os organizadores - alguns que ele já conhece e outros que são apresentados pela primeira vez. A poucos minutos de sua palestra, cria uma primeira impressão nos participantes. O apresentador troca diálogos, coloca algumas idéias, relata questões e relaciona anedotas no seu próprio estilo. Seus gestos não são planejados, seu sorriso não é forçado e sua entonação também não é imposta.

Porém, quando o apresentador vai para o palanque ou fica à frente do público, age de uma forma completamente distinta, criando assim uma falsa e plástica imagem. Essa atitude acaba o desfavorecendo e abalando a sua credibilidade, justamente para aquelas pessoas que ele já havia conquistado anteriormente.

* Roly Grimshaw é diretor do The Kingstree Group, uma Consultoria de Comunicação estabelecida em Londres

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In: Zero Hora, em 22/03/2007